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Isabel Stilwell falecomisabelstilwell@gmail.com 22 de Setembro de 2020 às 19:10

Tirem lá a paixão dos negócios

Segundo os dados de 2018, tempos áureos comparados com os de hoje, em cada 100 casos de paixão — ou seja, de empresas — 12 por cento quinaram no próprio ano, só 71 se aguentava no Natal seguinte, baixando para 56 ao fim de dois.

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Já percebi o que falha na nossa economia, o que convenhamos não é um feito menor. Não foi fácil, mas depois de ter ouvido mais um dos nossos ministros a discursar sobre como o mundo empresarial deve ser movido pela “paixão pelos negócios”, tive a certeza de que o problema é exatamente o facto de tantos dos nossos líderes imaginarem que uma empresa rentável e sustentável se move a amor e entusiasmo.

Tendencialmente pertenço à categoria dos que não fazem a mais pálida ideia do que é preciso fazer para conseguir vender o que quer que seja e ainda por cima cobrar a tempo de conseguir pagar os salários e os fornecedores e alimentar a chusma de parasitas que vivem à conta de quem produz riqueza, mas tenho a alegar em minha defesa que, ao contrário de tantos outros, nunca me passou pela cabeça transformar a minha visão poética em leis e diretivas.

Suspeito de que aprenderam tudo quanto sabem sobre o mundo dos negócios naquelas biografias de “empresários de sucesso”, redigidas por quem não sabe o que fazer com um relatório de contas árido e sem graça nenhuma, preferindo o relato romântico e empolgante a explicações de estratégias de marketing ou de produto, acesso a financiamentos e outras secas que tal. E é assim que nos convencemos de que os bons resultados da empresa de um tipo que vende bicicletas se devem à sua “paixão pela BTT”, o êxito de uma cadeia de restaurantes é justificada pela “paixão” pelos tachos e as panelas que lhe veio de pequenino quando ajudava a avó a fazer rabanadas, e a de um banqueiro nasceu da sua “paixão” por engordar porquinhos-mealheiros.

Explica, ainda, porque é que tantas vezes os próprios ministros e conselheiros dos ministros são escolhidos mais pela forma como conseguem galvanizar os outros com a sua “paixão” pela educação, pela saúde ou pela floresta do que pela competência, e dá-nos um lamiré de porque é que gente encarregada de pensar o futuro do país, em vez de pragmatismo e conhecimento, exibe a sua “paixão” por uma longa lista de lugares-comuns. O resultado, infelizmente, fica invariavelmente à vista e até um plano de recuperação económica para Portugal, como outros já disseram, mais parece uma carta ao Pai Natal — comparação injusta, porque apesar de tudo os miúdos têm sempre uma ou duas prioridades seguras. Mas é indiferente, porque quando tudo falha, a justificação também é simples: faltou-lhe paixão. Só pode ter sido isso.

O mais absurdo de tudo isto é que quando puxamos um bocadinho pelos neurónios, e nos libertamos desta versão delicodoce, fica claro que se há coisa secundária nisto de montar e manter um negócio é a paixão. Por que raio é que havia de servir para alguma coisa um sentimento que, como toda a gente sabe, se caracteriza por um andar com a cabeça nas nuvens, desligado da realidade, vendo bonito o que é feio, convencidos de que nos safamos com amor e uma cabana? Ainda por cima, logo um sentimento por natureza efémero, que os especialistas na química cerebral garantem que não dura mais do que três meses, vá lá seis, quando um empréstimo bancário exige o dobro só para ser aprovado e outro tanto para ver o dinheiro na conta, e mesmo assim só se o empresário apaixonado for capaz de ultrapassar a prova de arranjar as garantias e declarações que lhe exigem.

Aliás, para desfazer o mito, suspeito de que bastava que alguém fizesse uma correlação entre a paixão do empresário e a taxa de sobrevivência da empresa a 12 e a 24 meses, sem esquecer, claro, a taxa de mortalidade. Segundo os dados de 2018, tempos áureos comparados com os de hoje, em cada 100 casos de paixão — ou seja, de empresas — 12 por cento quinaram no próprio ano, só 71 se aguentava no Natal seguinte, baixando para 56 ao fim de dois. É o problema de muitas paixões: não são correspondidas. Ou não havia chama (dinheiro) suficiente ou o mercado traiu-os com outra.

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