Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 30 de julho de 2019 às 19:00

Um país de picoletos

Perante a dificuldade de se interiorizarem regras, e sem o poder necessário para se impor, quem manda prefere descer a fasquia, infantilizando os cidadãos. E lá vem o castigo dos picoletos, uma barreira física e palpável.

Andei na internet, juro que andei, à procura de empresas que fabricam picoletos, naquela versão moderna da borracha preta e amarela florescente, tal o desejo de saber quantos se vendiam por ano. Mais, se eram empresas cotadas em bolsa, com dividendos extraordinários que partilhavam com acionistas que perspicazmente tinham percebido a tempo como era inteligente investir num negócio bem mais rentável do que o dos kiwis.

 

Certamente por burrice minha, não as consegui encontrar. E, por isso, avanço para esta crónica no Negócios na esperança de que algum dos empresários de sucesso deste ramo me envie um email, convidando-me para sócia.

 

Se o leitor, por esta altura, se pergunta "Mas por que raio decidiu ela falar de picoletos?", é porque anda na rua de olhos vendados ou viaja hipnotizado pelo telemóvel, sem a consciência de que Portugal é uma verdadeira coutada destes novos adereços urbanos. Lá estão eles, em versão rígida ou flexível, a separar faixas de rodagem, a marcar rotundas, a rodear monumentos como se fossem centros comerciais de um jogo de Monopólio suburbano, ou delimitando os passeios e bermas, na sua função mais usual, ou seja a de impedir o estacionamento de automóveis.

 

É claro que a primeira tentação é a de apontar o dedo a quem os coloca, usando-os como muleta para a falta de pensamento estratégico e coragem de resolver os problemas de fundo, mas talvez seja igualmente útil esticá-lo contra a falta de civismo nacional que representam. Porque é dele que os picoletos se alimentam.

 

Na prática, são a prova acabada de um país que é alérgico à autoridade, exceto se esta assumir a forma de um polícia de carne e osso de bloqueador na mão; de um povo que encara uma linha contínua no alcatrão como uma simples sugestão, vê num sinal de proibido uma proposta meramente indicativa, e considera que o Código da Estrada foi escrito para todos, menos para ele.

 

Perante a dificuldade de se interiorizarem regras, e sem o poder necessário para se impor, quem manda prefere descer a fasquia, infantilizando os cidadãos. E lá vem o castigo dos picoletos, uma barreira física e palpável, respeitados apenas na medida em que são impossíveis de atropelar (por terem medo de estragar os seus preciosos carrinhos), arrastando consigo a perversa ideia de que tudo o que não está fisicamente impedido é território de ninguém. Ou seja, se há um quadradinho de berma ou de estrada que ficou esquecido é porque é para aproveitar, mesmo que impeça a passagem ou ponha a vida dos outros em risco. O que leva a nova plantação de picoletos, na tentativa de colmatar as falhas dos anteriores, multiplicando-se de tal forma que suspeito que já se reproduzem sozinhos.

 

O que fazer? Para lá de investir no negócio, não faço ideia. Mas sei que a nossa relação com a autoridade varia muito conforme imaginamos que vamos escapar sem castigo ou tememos ser apanhados, e que quanto menos somos educados para interiorizarmos regras, mais nos tornamos aquelas crianças que só se portam bem quando são constantemente vigiadas e reprimidas. Por outras palavras, um país povoado de picoletos, que se eternizam e multiplicam, significa que assumidamente se desistiu de acreditar que os portugueses são capazes de respeitar o espaço em que vivem, sem o tornarem um inestético e plastificado circuito de carrinhos de choque.

 

Jornalista

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