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Um pé dentro e outro fora (os nossos medos secretos)

Esqueça por instantes a Economia, o SNS e até o vírus, e pense no que o assusta quando lhe falam no fim do estado de Emergência. Começo primeiro: perder o que “ganhei” nesta quarentena.

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Só o confesso, porque pressinto que não estou sozinha: tenho sentimentos muito contraditórios sobre o regresso à vida “normal”, mesmo à versão do “novo normal” como agora se diz. Estas não são as ansiedades racionais, socialmente aceites, como o medo de apanhar o vírus, a preocupação com a capacidade do SNS, ou sequer, de como vamos recuperar a economia da austeridade que só um Pinóquio pode negar, mas agitações muito mais internas e subliminares. Aquelas que temos vergonha de admitir, às vezes até a nós próprios.

O meu problema, e desconfio que o de tanta gente, é que queremos de volta muitas das coisas que tínhamos na era anterior à covid, sem perdermos aquelas que conquistámos nesta quarentena forçada, mas suspeitamos de que a conciliação é impossível. É isso que agita e aflige.

Por um lado, assusta-nos que nos deem “alta” da quarentena, quando ainda temos uma lista infindável de coisas que nos propusemos fazer em isolamento, mas por outro, estamos desejosos de implodir as metas que nos colocámos, libertando-nos da omnipresença de telefones e computadores. E, já agora, da ditadura da máquina de lavar loiça, e, no meu caso, da obrigação de me sentar à mesa para comer uma refeição saudável, em lugar de apanhar uma bola de Berlim a caminho de algum lado, deixando que o prazer de um shot de açúcar me mate a fome.

Queremos muito retomar a nossa atividade fora de casa, que as reuniões sejam presenciais em lugar de sessões espíritas, com uma internet flutuante, e que surjam novos projetos que garantam o nosso futuro profissional e o suficiente para pagar as contas, mas não temos saudades nenhumas nem das conversas de circunstância, nem dos desabafos da colega da frente, nem dos almoços com um chefe carente que, mais do que de um brainstorming, busca companhia, nem tão-pouco de gerir conflitos.

Queremos muito sair à rua, e sobretudo à praia e viajar, mesmo que seja um vá para fora cá dentro, mas hiperventilamos só com a ideia de voltar a perder um tempo inútil em engarrafamentos, dos transportes públicos apinhados, sobretudo quando descobrimos que podemos resolver 99% dos problemas em teletrabalho. Hiperventilamos, também, ao ver as empresas minguar e desaparecer, sem que recebam os apoios prometidos, postos de trabalho a esfumarem-se e a pobreza a recuperar terreno, mas inspiramos fundo com uma felicidade inimaginável quando a nossa rua regressou a um sossego nunca antes visto.

 

Assusta-nos que nos deem “alta” da quarentena, quando ainda temos uma lista infindável de coisas que nos propusemos fazer em isolamento.



E é claro que, mais do que tudo, queremos voltar a abraçar filhos e netos, a juntar os amigos, e sim, voltar a passear num centro comercial, mas sabemos que com tudo isso voltará uma vida intensamente virada para os outros, em que não nos permitimos a solidão e o sossego que nos têm sabido tão bem. Que alívio tem sido, não ter de fazer planos para o fim de semana que se segue, e possuir a melhor das desculpas para não sair do mesmo sítio.

Suspeito que mesmo os pais, em prisão domiciliária há dois meses e com mais cinco meses pela frente sem escola, sentem este conflito. Ninguém mais do que eles está desejoso de um tempo só para si, de mudar o canal da telescola para o de uma série, mas provavelmente também os aterroriza o regresso a uma vida sempre a mil, a uma rotina que os esmaga. Também eles querem, seguramente, a escola pré-covid, e o teletrabalho, pós-covid, e também eles se agitam, como eu, para descobrir a fórmula certa para que nada volte a ser (exatamente) como dantes sem, contudo, ser (exatamente) o que agora é. 

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