Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 05 de abril de 2016 às 00:01

Uma nação que se torna devota nos feriados

Quando se trata de marcar feriados, aí, meu amigo, somos todos filhos do mesmo Deus e fiéis a Roma. Para o baldanço já se aplica a herança judaico-cristã, embora as celebrações se façam no Algarve.

De entre as situações mais bucólicas com que temos sido contemplados nos últimos meses ressalta a recente cerimónia de público gáudio orquestrada para celebrar a reposição de quatro feriados. A coisa foi de tal estirpe que corre o risco de destronar o ministro da Educação com aquele fabuloso número de mudar o sistema de avaliação a meio do ano escolar no "top" das barbaridades governativas com que os cidadãos têm de se acomodar.

 

Com sorriso aberto de orelha a orelha, governantes e apoiantes atiraram à malta ululante a graça de mais uns dias extra de ripanço, com o conforto de quem sabe que a coisa vai ser unanimemente aplaudida. Suspeito, aliás, que os senhores da oposição, que por imposição partidária tiveram de votar contra, ficaram verdadeiramente satisfeitos com esta "derrota" e foram logo a correr marcar as férias e fins de semana a casar com as "pontes" agora disponíveis.

 

Longe de mim questionar o impacto económico da medida. Estou absolutamente certa de que o Governo dispõe de inúmeros estudos elaborados por reputados economistas atestando que a medida é um valioso contributo para o progresso económico e que o facto de se deitar pela borda fora 2% dos dias de trabalho em nada afeta, antes pelo contrário, a produtividade que todos queremos aumentar.

 

Uma meia dúzia de vozes que pecaminosamente andam para aí a insinuar que a produção está relacionada com as horas trabalhadas e que se elas diminuem produz-se menos ou que para se produzir o mesmo é necessário gastar mais recursos (em horas extraordinárias) correspondem a lorpas e mentes pouco desenvolvidas, a decapitar liminarmente. Como se devem calar os que dizem que estas decisões saem da cabeça de uma classe política urbana, que gravita na esfera do Estado, e que nunca pôs os pés numa fábrica.

 

Mas o que me interessa agora era entender a essência da medida. Como sabemos ele há feriados religiosos e outros ditos civis. Em relação aos religiosos a minha surpresa é absoluta. Bem ou mal, para o caso não importa, não há dia em que não se deitam borda fora um dos estandartes da Igreja Católica: divórcio, aborto, casamento gay, adoção por homossexuais, só para falar nalguns. E a  par da progressiva diminuição de praticantes assistimos com naturalidade ao repúdio de tudo o que cheire a sacristia. Banimos os crucifixos das salas de aula e não mandamos os filhos à catequese, com a desculpa de que lhes pode sair um pedófilo na rifa. Mas já a coisa muda imediatamente de figura quando se trata de marcar os feriados no calendário. Aí, meu amigo, somos todos filhos do mesmo Deus e fiéis a Roma. Para o baldanço pois que já se aplica a herança judaico-cristã, embora as celebrações se façam no Algarve. 

 

Mas com os outros feriados a coisa também não vai melhor. Com 800 anos de História, bem podíamos deixar de trabalhar porque felizmente há um feito heroico para cada dia do ano, mas porque é que em lugar de celebrarmos datas que dividiram os portugueses, não celebramos aquelas que os uniram? Ora, perante a oportunidade que se oferecia de arrumar este assunto com pés e cabeça, fazendo uma escolha lógica e com sentido e ajustando tanto quanto possível o modelo às necessidades de todos, nomeadamente adiantando ou atrasando datas para reduzir a tentação do absentismo das pontes e minimizar os efeitos negativos das paragens de produção, o que é nós (ou quem nos representa, que é o mesmo) fazemos? Cortamos logo de raiz qualquer hipótese de consenso alargado sobre o assunto. Ou seja, da forma que a coisa foi feita ficamos já com a certeza absoluta de que quando o Governo mudar de cor levamos logo de seguida com uma alteração de datas que é para deixar bem claro quem é que manda aqui. E, claro, não perdemos um minuto a refletir o que é que faria mais sentido ao coletivo, cujo interesse não é obviamente a soma dos interesses mesquinhos de cada um de nós.

 

Apesar de tudo ainda nos devemos dar por felizes. Se em vez dos feriados o que dividisse os partidos fosse a condução pela esquerda ou pela direita ou o fuso horário, a alternância seria bem mais difícil de aguentar!

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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