João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 10 de janeiro de 2019 às 20:40

A insatisfação no trabalho

Pensar em mudar de emprego está na cabeça de quase toda gente seja ou não verbalizado diariamente. E todos conhecemos alguém que tem um emprego melhor que o nosso.

Um dos privilégios de se ser professor é que se conhecem as histórias pessoais de muitos profissionais diferentes. Por um lado, cada história é singular e única. Por outro, muitas partilham traços comuns.

Em alunos adultos é comum haver um sentido de insatisfação com o trabalho. O investimento em educação e a frequência de programas académicos exigentes e rigorosos é uma das formas mais comuns dos profissionais, particularmente os de gestão, sinalizarem algum tipo de insatisfação com a sua atividade ou estatuto profissional.

 

Mas muitos profissionais que não dão esse passo estão também insatisfeitos com o seu trabalho. O tema é geral, comum e partilhado por muitos, mesmo pelos que não sentem a necessidade ou a tentação de fazer greves ou outra forma de comportamento contraproducente para as organizações em que se integram.

 

Sob o risco de generalização excessiva atrevo-me a dizer que a insatisfação no trabalho é a norma e não a exceção. E a expressão "se fosse lúdico e cativante não se chamava trabalho" não é conformista mas reflete que trabalhar "dá trabalho." A maior parte das pessoas trabalham porque necessitam do rendimento que resulta do seu trabalho para viver e cuidar dos seus.

 

Pensar em mudar de emprego está na cabeça de quase toda gente seja ou não verbalizado diariamente. E todos conhecemos alguém que tem um emprego melhor que o nosso.

 

E a sabedoria do adágio popular "a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha" é um bom ponto de partida. Já que nos ajuda a compreender o risco de considerar que as coisas são melhores noutro sítio apenas porque não lhes conhecemos os defeitos.

 

Estar aberto à mudança de trabalho tem dimensões positivas. Mas se as razões forem apenas associadas à insatisfação com o nosso trabalho podem refletir apenas aspetos negativos idiossincráticos do nosso ambiente de trabalho atual.

 

Um artigo de 2012 de Amy Gallo na Harvard Business Review dá bons conselhos para lidar com este problema. ("Don't Like Your Job? Change it Without Quitting")

 

A premissa central é de que podemos lidar com a nossa insatisfação no trabalho sem nos despedirmos. Até porque isso é também fator de stress junto da família e dos amigos, e perdemos algum capital específico que resulta do nosso conhecimento e experiência na organização em que nos inserimos.

 

O mais importante é garantir que o nosso trabalho tem significado e sentido. Isso é verdade a qualquer nível hierárquico de uma organização. Se a nossa empresa ou o nosso chefe não nos consegue explicar o sentido do nosso trabalho teremos de ser nós próprios a fazê-lo. Trabalho sem sentido é muito desmotivador.

 

Um problema comum a atitude de queixa permanente - no local de trabalho, com os amigos ou em casa. Se a maioria das pessoas estão insatisfeitas com o trabalho as que se queixam são naturalmente geradoras de pior ambiente na empresa e por vezes também má companhia. Muitas vezes não têm a empatia de compreender que há outras pessoas que também estão insatisfeitas, mas que são mais respeitadoras dos outros.

 

Todos os empregos têm coisas de que gostamos. E que ficaríamos tristes se perdêssemos.

 

Por vezes é a importância concreta da tarefa e o nosso brio profissional. Outras vezes é um conjunto de colegas que admiramos e com quem gostamos de trabalhar. Outras vezes ainda são as entidades externas com quem interagimos e que dependem de nós para a sua vivência e sobrevivência. Focar nas coisas e pessoas que gostamos liberta-nos parcialmente dos aspetos negativos do trabalho.

 

Por vezes o fardo mais pesado é a insatisfação com o chefe. E o ambiente carregado que cada interação com ele ou ela comporta. Mesmo nesses casos pode ser possível alterar o trabalho sem mudar de emprego. Afinal os chefes dos outros, como as galinhas do adágio, também são problemáticos.

 

Para mim é reconfortante pensar que quase todos os problemas que nós temos já foram sentidos por outros. E nalguns casos bem resolvidos, por outros melhores que nós.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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