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Horizontes e recessão

Esta é a primeira recessão global da era da Internet, e o ser humano pode não estar ainda preparado para lidar com ela com a serenidade e a perspectiva histórica necessárias. A fazer fé nos sucessivos relatos disponíveis nos vários tipos de media

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Esta é a primeira recessão global da era da Internet, e o ser humano pode não estar ainda preparado para lidar com ela com a serenidade e a perspectiva histórica necessárias.

A fazer fé nos sucessivos relatos disponíveis nos vários tipos de media - televisão, rádios, jornais, blogues, relatórios e "sites" de diversas entidades credíveis - o dramatismo sobre a gravidade da situação financeira e económica global parece estar em crescendo.

Mas hoje, à extrema velocidade de circulação da informação à escala nacional e global, está também associada uma vida mediana muito curta de quase toda essa informação. Nunca na história da humanidade a informação instantânea se tornou obsoleta de forma tão rápida. Muitos dos jornais diários parecem trazer notícias velhas. As reportagens noticiosas nas televisões não incorporam informações que já são do conhecimento das suas audiências. E os "sites" que não se actualizam ao minuto parecem repletos de notícias que já não o são.

Assim, o bombardeamento de notícias negativas a que hoje estamos sujeitos parecerá, quando avaliado daqui a alguns anos, bastante desapropriado à descrição da nossa realidade actual. O mesmo se passa, aliás, com as notícias boas ou positivas com que também somos presenteados e que o passar do tempo revelará serem não notícias.

Isto não significa que não venhamos a entrar num período recessivo longo e profundo, mas sim que a intensidade das notícias a que somos sujeitos pode não estar directamente correlacionada com a intensidade ou duração da recessão, já que é a primeira vez que a sofremos neste ambiente de elevada velocidade de difusão e obsolescência da informação.

Esta velocidade informativa parece impelir-nos também para um estágio de decisão instantânea. Se a informação é relevante, devo fazer qualquer coisa já! Mas se ela se vai tornar obsoleta rapidamente então não vale a pena fazer nada! Qual o horizonte temporal certo para avaliar o valor da informação num contexto empresarial?

Vários estudos apontam para que um dos principais determinantes das decisões de consumidores, empresas e investidores é o horizonte temporal em que elas são perspectivadas. Uma decisão que parece boa, se vista num horizonte de 24 horas, pode parecer mediana a 1 ano, ou mesmo muito má a 5 anos. A explicação mais óbvia para as mentirolas das crianças é a de que elas têm um horizonte muito curto (por vezes algumas horas apenas) quando escolhem essa opção.

Uma das consequências das recessões é que os horizontes temporais de decisão dos vários actores se encolhem também de forma significativa. A preferência por dinheiro vivo em detrimento de oportunidades de investimento é uma das manifestações de horizontes mais curtos nas decisões aos vários níveis hierárquicos das empresas. Muitas vezes é a gestão de topo com demonstrações constantes de nervosismo - actualizações frequentes de previsões de vendas e "cash flows", cortes rápidos nas despesas discricionárias ou paragem nos novos projectos - que passam ao resto da organização a necessidade de encolher horizontes.

Sucede que há vários estudos que sugerem que empresas com horizontes temporais mais largos tendem a ser mais rentáveis no longo prazo. Por isso o encolhimento do horizonte das decisões em períodos recessivos parece destruir valor em vez de o criar.

Aparentemente muitos decisores vêem a recessão como uma parede intransponível. Todos os planos são feitos até bater nessa parede que limita de forma asfixiante o horizonte das decisões. Parecem assim esquecer-se de que, por definição, as recessões são temporárias e não eternas. Por isso, não é razoável acreditar que a probabilidade do mundo acabar aumentou apenas porque, conjunturalmente, não há crescimento económico ou porque a quantidade de notícias sobre o fim do mundo parece ser tão grande (uma consequência da nova era da informação). Nada parece justificar de forma racional o encolhimento dos horizontes de decisão.

Em primeiro lugar, há que considerar os efeitos das taxas de juro. Se as taxas de juro aumentassem muito poder-se-ia pensar que os resultados de curto prazo se tornaram relativamente mais importantes justificando assim horizontes de decisão mais curtos. Mas essa não parece ser a nossa situação, nem em termos nominais nem em termos reais.

Em segundo lugar poder-se-ia invocar o próprio ambiente económico. Se há menos procura no próximo ano, os projectos valem menos. Porém, esse efeito deveria tornar relativamente mais importante o "cash flow" futuro dos projectos empresariais. Assim, as boas empresas percebem que o crescimento não será baixo eternamente e atribuem mais importância às suas oportunidades futuras.

Em terceiro lugar, argumenta-se que o aumento da incerteza torna o curto prazo mais importante. Mas, pelo contrário, parece mais seguro lidar com a incerteza diversificando a oferta e não encolhendo-a, para capitalizar no eventual crescimento dos negócios que com os olhos de hoje não parecem ser rentáveis. O aumento da incerteza aumenta o valor da carteira de projectos das empresas. Os negócios que se tornaram mais incertos devem agora ser analisados com perspectivas temporais mais latas, precisamente porque a incerteza aumentou.

Embora pareça razoável aceitar que, tendo em conta algumas regras heurísticas que comandam o comportamento humano, os decisores ficam com horizontes mais curtos em períodos recessivos, parece-me legítimo concluir que isso resulta mais de enviesamentos cognitivos do ser humano do que de razões objectivas do ambiente económico.

Os gestores de topo deveriam alargar o horizonte temporal em que as diversas decisões empresariais são enquadradas, combatendo assim o natural afunilamento que ocorre nestes períodos. A extrema intensidade de notícias negativas vindas de todos os lados torna ainda mais urgente este alargar de perspectivas.
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