João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 04 de abril de 2019 às 20:25

Inovação e estabilidade

A larga maioria das novas empresas imitam o que já é feito por outras empresas em Portugal ou no estrangeiro. Noutras instâncias experimentam processos que, por desconhecimento, já foram tentados sem sucesso por empresas mais conhecedoras e experientes.

É comum ouvir-se um apoio incondicional às virtudes da inovação e do papel nuclear que as pequenas empresas mais criativas têm no desenvolvimento económico. Por vezes no contexto de uma dicotomia com as empresas maiores, mais burocráticas e pesadas.

 

Poderíamos pensar que esta afirmação é em si mesmo inovadora e disruptiva, mas Ted Levitt (1925-2006), o mais influente editor da Harvard Business Review, desmascarou essa falácia num editorial muito curioso "On Agility and Stability" em 1988. Dizendo que era uma moda na época.

 

Um anúncio que ouço regularmente na TSF ilustra o essencial da tese de Levitt. O empreender do anúncio afirma com orgulho que já não é uma "start-up" mas sim uma "grow-up". Dando a entender, e bem, que o principal objetivo da maioria das empresas novas é tornarem-se, com o seu sucesso, empresas maiores, bem estabelecidas, e com grande longevidade. Para isso têm de criar regras.

 

A importância das empresas novas é óbvia. Criam emprego, geram oportunidades, libertam-se de regras desnecessárias, experimentam caminhos novos, reduzem o peso do legado, libertam-se de dívidas. Mas a larga maioria das novas empresas imitam o que já é feito por outras empresas em Portugal ou no estrangeiro. Noutras instâncias experimentam processos que, por desconhecimento, já foram tentados sem sucesso por empresas mais conhecedoras e experientes.

 

É falacioso pensar, portanto, que ser inovador é sinónimo de ser melhor. Ou que é preciso ser novo no mercado para contribuir para o progresso da sociedade.

 

Pelo contrário, as empresas grandes e estabelecidas já viram muitas "ideias novas" que o não são. Muitas experiências que falharam. E muitas tentativas que não se realizaram. Essencialmente por que as condições adequadas não se materializaram plenamente, e não por falta de competência ou aversão à mudança.

 

É verdade, claro está, que os incentivos existentes numa empresa, podem impedir uma inovação boa de prosperar internamente. Mas ninguém sabe ao certo a percentagem de ideias novas que não nascem nas grandes empresas por razões de política interna ou por não serem tão boas assim. Muitas empresas com iniciativas de empreendedorismo interno descobrem depressa os limites do potencial económico da maioria das iniciativas. E isso também não significa que não devam continuar a criar condições para esse processo criativo. Significa apenas que não devem ter expetativas irrealistas sobre o número de boas inovações ou do seu potencial de mercado.

 

E quando uma empresa estabelecida faz coisas novas bem-feitas raramente tem a visibilidade pública idêntica ao de uma empresa nova. Em parte, porque é mediaticamente mais interessante heroicizar David do que Golias.

 

Devemos avaliar as inovações pelo seu mérito intrínseco e não por serem oriundas de empresas novas ou antigas. De igual modo o epíteto "inovação" não ser usado como sinónimo de bom, progresso ou melhoria. Na melhor da hipóteses é apenas uma novidade. E mesmo assim limitado apenas ao conhecimento de quem chama a algo uma "inovação."

 

As empresas estabelecidas, e os Estados bem governados, criam as condições de estabilidade e paz necessárias para os processos criativos e de inovação. As inovações positivas resultam de ambos: estabilidade e inconformismo. E argumentar sobre a importância relativa de uma ou outro é um exercício de retórica sobre uma falsa dicotomia.

 

O mundo está em constante melhoria. E a economia portuguesa precisa do contributo de todas as empresas. Estabelecidas ou start-ups. Grandes ou pequenas. Inovadoras ou conservadoras. Tecnológicas ou tradicionais. Industriais ou de serviços.

 

E se queremos melhorar a alocação dos recursos públicos e de crédito deveríamos criar uma base dados com o histórico das decisões de financiamento dos bancos e do Ministério da Economia nos últimos 40 anos. E contratar "data scientists" para descobrir as regularidades passadas e os modos de decisão pública ou da banca que mais valor terão gerado. Isso sim seria verdadeiramente inovador.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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