João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 28 de maio de 2020 às 21:00

O desconfinamento gradual

O uso de princípios absolutos na justificação de decisões públicas, como a do confinamento, não é apenas falaciosa é também errada. E dificulta a normalização da vida social resultante da observação de dados da pandemia relativamente favoráveis.

A situação atual coloca desafios sem precedentes a governantes e gestores.

Hoje queria partilhar uma reflexão sobre as dificuldades de decisão, implementação e comunicação de uma estratégia de normalização gradual.

No início de março os vários países europeus, e o mundo desenvolvido em geral, foram confrontados com a necessidade de interromper o normal funcionamento da sociedade, incluindo, claro está, inúmeras atividades económicas. E na prática derrogando de forma ambígua as obrigações dos inúmeros contratos explícitos e implícitos que são a base da nossa vida em sociedade.

O argumento usado na altura deveria ter sido cuidadoso e ponderado. Mas é difícil comunicar decisões com nuances.

O que deveria ter sido dito pelas autoridades era algo do género: “O risco do coronavírus é real para a humanidade, nós não sabemos bem o que devemos fazer, mas achamos melhor que, quem possa, se proteja, ficando em casa, se tiver capacidade financeira para isso. Se suspeitar de que tem o vírus isole-se durante 14 dias e não corra o risco de infetar familiares, amigos, colegas ou transeuntes incautos. Nesta altura não estamos a recomendar usar máscara social nos espaços públicos mas podemos mudar de opinião pois as razões para isso são multifacetadas e complexas. E as pessoas que usam máscara em público são tão responsáveis como as que não usam. Há muitos testes e equipamentos médicos diferentes e estamos demasiado desorientados para dar instruções precisas aos cidadãos sobre o que devem fazer. Mas nas próximas semanas iremos clarificar o que conseguirmos em articulação com os especialistas nacionais e internacionais, que não estão sempre de acordo em tudo. Estas orientações irão mudando em função da evolução da doença e do nosso conhecimento sobre ela e as várias formas de tratamento, da pressão sobre o sistema de saúde, da evolução dos outros problemas da sociedade e da economia em Portugal e no resto do mundo.”

Esta frase é péssima em termos de comunicação. A maioria dos leitores não teve paciência para a terminar de ler. Tem muitas nuances e condicionantes. Não se consegue criar um slogan. Nem fazer um cartaz. E um anúncio de rádio ou televisão seria um pesadelo comunicacional.

Como é difícil comunicar a verdade complexa, mas é preciso comunicar, a alternativa é comunicar uma verdade simplificada. Que normalmente é uma frase simples e errada.

Como é preciso explicar o conteúdo da comunicação nas televisões de forma mais ou menos contínua, tem de se usar explicações simplistas normalmente erradas. Em vez de usar explicações com nuances, complexidade e incerteza, que estão muito mais próximas da verdade.

Os argumentos mais ouvidos sobre o combate à pandemia tinham propostas simplistas: “Fecha tudo.” Ou objetivos simplistas de uma métrica apenas: “Aplanar a curva.” Ou falsas dicotomias como: “A vida é mais importante do que a economia.”

Se quem ouviu estas mensagens as tivesse interpretado como estratégias de comunicação, seria fácil mudar. O problema é que muitos acreditaram que os slogans que funcionavam na televisão eram as razões de fundo para as decisões. Para as pessoas que acreditaram nos argumentos na forma de slogans ou “tweets”, a mudança no discurso das autoridades durante o mês de maio é verdadeiramente incompreensível. E alguns sentem-se enganados por terem acreditado na veracidade universal dos slogans.

Esta dificuldade de comunicação ocorre de um modo semelhante nas empresas e outras organizações. Sendo tanto mais incompreensível quanto mais radical foi a explicação para a interrupção da atividade e maior for a organização. As pessoas pensam que estão a ser enganadas quando lhes dizem que uma determinada doença era muito perigosa em março e já não o é em maio.

Quando se antecipa que o conteúdo da comunicação pode ter de mudar depressa em função dos dados observados convém alertar os destinatários da comunicação dessa condicionante. Os especialistas temiam uma taxa de mortalidade global decorrente do vírus em março muito maior do que temem agora. E a dimensão da quebra de atividade económica decorrente do medo das pessoas e das medidas sanitárias não se antecipava que pudesse ser tão grande.

É importante que quem toma as medidas difíceis em tempos de crise explique que as decisões dependem do que se observará no futuro. Os recursos usados num combate a um incêndio dependem da dimensão, perigosidade, condições climáticas e a evolução do próprio fogo. Os portugueses percebem isso.

As autoridades não devem pretender que são prescientes e sabem o que vai acontecer. Pelo contrário devem valorizar a importância de recolher informação importante de forma rápida e alterar a estratégia e a sua comunicação em função dos dados concretos observados.

Há muito que os Bancos Centrais dizem aos mercados que as suas decisões dependem dos dados. Seria bom que os governos e os líderes empresariais dissessem o mesmo. A racionalidade do ser humano obrigado a condicionar o comportamento à realidade observada e às suas expectativas sobre o futuro.

O uso de princípios absolutos na justificação de decisões públicas, como a do confinamento, não é apenas falaciosa é também errada. E dificulta a normalização da vida social resultante da observação de dados da pandemia relativamente favoráveis.

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