João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 17 de abril de 2016 às 18:00

Psicologia das previsões

"Superforecasting: The art and Science of Prediction" (2015) é uma obra de Philip Tetlock e Dan Gardner sobre o que faz algumas pessoas serem particularmente boas a fazer previsões. O tema das previsões sempre me interessou, e é um instrumento essencial a qualquer processo de decisão.

E todos nós fazemos continuamente previsões sobre os mais variados eventos. Umas vezes verbalizadas ou escritas. Outras vezes apenas nos nossos próprios pensamentos. Mas muito do que fazemos no quotidiano é moldado por essas previsões mais ou menos formalizadas. A antiguidade dos oráculos e o sucesso das cartomantes ilustram a saliência perene das atividades de previsão.

 

O que sempre me intrigou não é tanto que as pessoas cometam erros de previsão. Isso aliás seria normal. O que me intriga é que as pessoas sejam tão boas a fazer previsões, por vezes sem recurso a métodos estatísticos formais ou baseando-se em informação esparsa e escassa.

 

A obra "Superforecasting" concentra-se em tentar explicar o que faz com que alguns sejam tão bons a fazer previsões que batem a generalidade dos modelos estatísticos, mesmo os mais sofisticados. Os chamados "superforecasters".

 

Comecemos por pensar nas circunstâncias em que as previsões humanas são inúteis. Pensemos em casos extremos. Prever os números que saem no Euromilhões é um exercício inútil. Claro que essa previsão seria muito valiosa se fosse possível. É inútil porque as probabilidades de sair cada número são conhecidas. E é impossível melhorar sobre essa informação de base. Pelo menos sem fazer batota.

 

Gastarmos tempo a prever a hora a que nasce o Sol ou a altura das marés é também inútil. Neste caso por uma razão oposta. A ciência que permite fazer estas previsões é tão exata que existem centenas de apps que nos dão esta informação com grande precisão a custo nulo. Neste caso, a ciência é tão boa que uma vez que compreendamos a lógica das previsões dos especialistas rapidamente as aceitamos como boas. Não vale a pena esforçarmo-nos por as melhorar.

 

A previsão de eventos humanos está num ponto intermédio o que a torna mais interessante. Por um lado não são completamente aleatórios. Mas por outro lado nenhum especialista tem o grau de compreensão ou presciência que permite fazer previsões sem erros relevantes. E é nestes detalhes que as diferentes pessoas que são chamadas a fazer previsões são diferencialmente eficazes. Há uns "superforecasters".

 

Exemplos de eventos humanos são os preços das ações na bolsa ou as taxas de juro implícitas na dívida pública. Prever valores futuros destes preços seria bastante rentável para quem o conseguisse fazer. Mas estes não são os temas em que os "superforecasters" são especialmente bons. Nomeadamente se os mercados forem muito líquidos, isto é, com elevado número de transações diárias efetuadas por muitos agentes económicos diferentes. É difícil que qualquer ser humano individual consiga antecipar melhor do que o mercado os preços futuros num mercado financeiro muito líquido.

 

As previsões humanas são, assim, particularmente interessantes para antecipar eventos com características de novidade, como o sucesso de um filme, de uma start-up ou de um novo produto a introduzir no mercado. Ou ainda antecipar uma mudança política ou de regime num determinado horizonte temporal. Por exemplo, os ditadores são bastante resilientes. Pelo que a probabilidade de um ditador se manter em funções de um ano para o outro é elevada. Mas por outro lado os ditadores vão perdendo força com idade, nomeadamente, se se prolongam por largas décadas no poder. Assim quem faz previsões sobre as mudanças políticas em ditaduras é particularmente sensível quer à antiguidade no cargo, quer à idade, quer ainda ao estado de saúde do ditador de interesse. Mas também à natureza dos sinais de turbulência social ou militar, situação económica ou desvalorizações cambiais e inflação. As pessoas dotadas para este tipo de previsões olham para os mesmos fatores e informações, mas combinam-nos de uma forma mais perspicaz do que os demais humanos.

 

Alguns aspetos são interessantes. Em primeiro lugar, as previsões melhoram se tiverem caráter probabilístico. Ou seja, prevê-se que determinado evento, por exemplo a mudança de líder na Coreia do Norte, ocorra num determinado horizonte temporal, por exemplo, até ao final do ano, com determinada probabilidade.

 

Os "superforecasters" sentem-se confortáveis a fazer este tipo de juízos probabilísticos. E são sensíveis ao significado de pequenas mudanças na probabilidade de ocorrência de um evento. Por exemplo, compreendem bem a diferença entre prever com 55% de probabilidade ou 45%. Para muitos de nós essa previsão é essencialmente igual para ambos os valores. Em segundo lugar, usam quase toda a escala das probabilidades e não apenas o meio (50-50) ou os extremos (95-5%) para prever diferentes eventos.

 

E em terceiro lugar, são sensíveis ao horizonte temporal da previsão. Ou seja, ajustam as probabilidades de forma relevante se estiverem a prever o mesmo evento, por exemplo, uma mudança de regime político, a seis meses, um ano ou dois anos.

 

Outro aspeto curioso é o modo como valorizam a opinião dos outros. Pensemos na previsão de um resultado desportivo. Se dez especialistas na televisão concordam que a probabilidade de uma determinada equipa ganhar o campeonato este ano é 70%, é normal que se considere que esse juízo coletivo seja uma boa previsão do resultado final, com aquela probabilidade de acerto. Mas suponhamos que para um evento relativamente raro, a queda de um ditador, dez comentadores especializados com acesso a muita informação dizem de forma independente que a probabilidade de mudança de regime a seis meses é de 70%. Neste caso os "superforecasters" compreendem o invulgar da concordância dos comentadores e ajustam as probabilidades do evento para um valor muito superior aos 70%, já que só seria razoável que todos concluíssem que o valor era tão elevado se as condições subjacentes fossem muito favoráveis à mudança de líder.

 

A capacidade de ouvir e compreender as razões dos outros é assim um dos segredos dos "superforecasters."

 

O que me leva a duas observações finais. As previsões de acontecimentos humanos beneficiam se forem feitas por grupos e não por indivíduos isolados. E para evitar enviesamentos de memória beneficiam se forem reduzidas a escrito de forma sistemática. O mais importante porém é que os eventos a ser antecipados sejam claros, inequívocos e relevantes. Ou seja que se possa dizer "a posteriori" se ocorreram ou não. E que dependam de alguma forma de sinais que possam ser detetados no presente.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

pub

Marketing Automation certified by E-GOI