João Borges de Assunção
João Borges de Assunção 21 de fevereiro de 2011 às 11:35

Regras para revolucionários

Sei que neste momento é difícil ter qualquer conversa sobre o futuro de Portugal ou das empresas portuguesas sem falar do problema da dívida soberana. Porém, é isso que vou tentar fazer.
A maior parte das empresas não se deve preocupar com esse problema pela razão simples de que não podem fazer nada para o resolver. Por isso a sua energia é melhor canalizada para tratar dos assuntos que elas de facto podem resolver. Em particular desenhar uma estratégia que seja adequada ao ambiente em que vivem.

Neste contexto, livros como "Rules for Revolutionaries", de Guy Kawasaki, são estimulantes para gestores e quadros empresariais que aspiram a que as suas empresas sobrevivam à crise e prosperem depois dela.

A experiência de líderes empresariais de sucesso pelo mérito constitui um estímulo para acreditar que é possível ultrapassar dificuldades. Por exemplo, o falecido fundador da Walmart (Sam Walton) ouviu muitas vezes a frase de que seria impossível criar uma grande empresa a partir de uma terra pequena. Alguns especialistas de distribuição diziam-lhe até que se sabia que era impossível viabilizar uma loja de "discount" em cidades com menos de 50.000 habitantes. Ele era originário de Kingfisher, no Oklahoma, e abriu a primeira loja da Walmart (que durante alguns anos foi a maior empresa da bolsa norte americana) na pequena cidade de Rogers, no Arkansas. O seu conceito de loja veio a ser estudado e adaptado por centenas de distribuidores e retalhistas do mundo inteiro.

Não consta que a sua carreira tenha sido estimulada por qualquer programa ou agência governamental.

A frequência com que ouvimos dizer que a dimensão e posição periférica de Portugal são uma desvantagem para as nossas empresas chega a ser cansativa. Pior é a conclusão de que isso obriga a uma maior intervenção do Estado na economia ou à criação de certas especificidades legislativas que protejam os nossos frágeis concidadãos.

Esta é aliás uma das primeiras regras para os revolucionários nas empresas. Não aceitar como boas ou razoáveis as regras gerais que lhes são ditadas por várias instituições, especialistas ou hierarquias e que limitam o seu espaço de criatividade estratégica.

Aliás, a primeira regra para um verdadeiro revolucionário é pensar de forma diferente. Para isso é recomendada uma abordagem em três passos. O primeiro passo é a purga. Aqui o importante é colocar em causa os ídolos actuais ou as vacas sagradas. As ideias feitas sobre como se distribui os produtos num determinado sector ou as empresas que podem ser nossas aliadas ou concorrentes. Esta abordagem deve ser feita à própria forma como o problema nos é colocado. Se todos nos dizem que é um problema sermos periféricos, pensemos em todas as vantagens que temos em haver uma certa distância dos nossos clientes e fornecedores. Se nos dizem que estamos longe de Berlim, expliquemos que ninguém está simultaneamente tão perto de New York, Bruxelas, Luanda e São Paulo.

O segundo passo no processo de pensamento do revolucionário é sacudir ou incitar. Os problemas devem ser abordados de forma a que a resposta seja nova. Assim, em vez de apresentar a forma como a empresa faz as coisas como a solução correcta para um determinado problema, deve garantir-se que a forma tradicional de trabalhar possa aparecer como errada. Claro que isso vai deixar nervosas muitas pessoas na empresa, mas é isso que significa sacudir ou incitar. Se as pessoas não ficarem um pouco irritadas, frustradas ou ameaçadas porque razão hão-de procurar novas soluções?

A regra geral é resolver os problemas do modo formalmente correcto, isto é do fim (objectivo) para o princípio (meios). O que nas empresas significa começar por compreender bem as necessidades dos clientes e consumidores, o fim último das actividades da empresa.

A natureza é uma fonte inesgotável de ideias estratégicas para as empresas. Note-se que no mundo animal tamanho não é sinal de sucesso - os elefantes não são necessariamente mais bem sucedidos do que as formigas. E que cada espécie persegue estratégias muito diferentes. A sobrevivência de cada espécie depende da sua adaptação ao meio. E encontramos espécies bem sucedidas com estratégias de vida e reprodução muito diferentes.

O terceiro passo é precipitar um momento eureka. Sim, daqueles que se experimentam, por exemplo, quando a reacção química de substâncias líquidas diferentes dá origem a um gel. Também aqui a ciência mostra como coisas aparentemente improváveis para leigos são fáceis de provocar para um estudante de química. Este rapidamente aprende a distinguir o aparentemente impossível do efectivamente improvável à luz da ciência conhecida.

Nas empresas, os clientes insatisfeitos, e particularmente os muito insatisfeitos devem ser vistos como oportunidades para desenhar e oferecer novos serviços. Não devem por isso ser desvalorizados, criticados ou ridicularizados. Muitas seguradoras só mudam os seus processos e tornam-se apreciadas quando passam a tratar os seus clientes como pessoas normais e não como malandros. As crises obrigam as empresas a prestar mais atenção aos seus clientes e essa mudança de atitude já é uma grande melhoria na sua estratégia.

O principal corolário que as empresas podem retirar da nossa actual situação económica é a urgência em repensar o que dão como certo e permanente e o que é apenas transiente no meio em que operam. Usar as regras dos revolucionários, e até a inspiração resultante do sucesso dos jovens tunisinos e egípcios, ajudará os líderes e quadros empresariais a repensar o caminho das suas empresas.



Professor
Católica Lisbon School of Business & Economics
Universidade Católica Portuguesa
jba@fcee.ucp.pt
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