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Travar o Brexit

Cameron, com o seu comportamento de líder partidário e não de estadista, tem enorme responsabilidade na atual situação. Mas numa democracia a responsabilidade de erros eleitorais é sempre do povo.

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Escrevo no dia seguinte ao referendo britânico sobre a sua saída da União Europeia (UE). Que foi ganho pelo Brexit. Na sequência desse resultado, e bem, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou a sua demissão, e acredito que haverá em breve eleições gerais no Reino Unido.

 

A primeira ideia que quero deixar é que o Reino Unido (RU) ainda não saiu da UE, e que me parece óbvio que um PM demissionário não deve iniciar formalmente o processo de saída. A probabilidade de saída é bastante elevada, mas, talvez de forma ingénua, continuo a pensar que há formas de a travar. Particularmente se houver trabalho diplomático e político de qualidade, primeiro no RU depois na própria UE.

 

Os resultados do referendo já tiveram um efeito significativo nos mercados de capitais, com destaque para a fortíssima desvalorização da libra e a queda generalizada das bolsas. Mas o principal custo da eventual saída será em termos de perda de produto (PIB) quer da UE quer do RU. Maior em termos relativos no RU e talvez maior em termos absolutos no resto da Europa. É difícil explicar como os britânicos, ou melhor os ingleses, optam num referendo por uma decisão com um custo tão elevado. Poderá demorar mais do que três ou quatro anos ao Reino Unido a recuperar a perda de produto que pode resultar da saída. O que leva um Governo e um povo a este ato de "destruição sumptuosa"? Vemos por vezes manifestantes a destruir propriedade, mas é muito raro ter eleitores a fazer mesmo.

 

Cameron, com o seu comportamento de líder partidário e não de estadista, tem enorme responsabilidade na atual situação. Mas numa democracia a responsabilidade de erros eleitorais é sempre do povo.

 

Os critérios económicos não são os únicos relevantes nas decisões públicas. Por exemplo, nos tempos do colonialismo a luta pela autodeterminação venceu, mesmo quando os resultados poderiam ser negativos para os povos, em termos estritamente económicos. O que é extraordinário é que tantos britânicos se sintam mesmo uma colónia da Europa. E que o RU seja visto de um dia para o outro como um país com elevado risco político, como Grécia, Espanha ou Portugal. E não um país com instituições políticas fortes e estáveis.

 

O próprio sistema financeiro britânico está ameaçado, pela simples circunstância de poder haver muitos britânicos e estrangeiros que podem querer ter os seus ativos financeiros em dólares ou euros e sob a jurisdição de países com instituições públicas mais credíveis.

 

Parece-me assim, ainda sob os efeitos da madrugada eleitoral, que as próximas eleições britânicas se organizarão de forma significativamente diferente. Não tanto em termos de deputados trabalhistas ou conservadores, mas sim em termos de deputados que apoiam candidatos a primeiro-ministro pró ou contra o início do processo da saída da UE. E é neste sentido que o Brexit não me parece, ainda, ser um facto consumado.

 

O meu conselho para a União Europeia e os seus principais líderes seria mostrar para com Cameron e o seu sucessor a mesma paciência que têm tido com Tsipras e os seus antecessores. A decisão do RU terá de ser respeitada, mas as instituições políticas britânicas e o seu eleitorado têm de ter tempo de se reorganizar para gerir a saída ou para mudar de opinião caso a futura liderança seja legitimada para isso.

 

É difícil perceber plenamente as razões que levam a uma insatisfação tão profunda dos cidadãos dos países mais ricos do mundo. Algo está errado, mas não me parece que seja nem a democracia nem o funcionamento dos mercados. E a desigualdade tem as costas demasiado largas como justificação central para o sentimento de desorientação dos eleitores.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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