João Cândido da Silva
João Cândido da Silva 18 de novembro de 2013 às 09:27

A concorrência é uma maçada

"Já existe muita concorrência no mercado e o Estado deve ser regulador em vez de ser interventivo. Mas não é isso que está a acontecer".

"Já existe muita concorrência no mercado e o Estado deve ser regulador em vez de ser interventivo. Mas não é isso que está a acontecer". O desabafo é de Nuno Amado e surgiu durante a conferência de imprensa de apresentação dos resultados do BCP relativos ao terceiro trimestre de 2013. Não faltam motivos, na actual conjuntura, para os banqueiros andarem preocupados. Mas resta saber se razões de queixa como aquela que foi protagonizada pelo líder daquela instituição financeira têm razão de ser.


Pergunte-se a um gestor ou empresário se aprecia a concorrência e a resposta será positiva na esmagadora maioria das situações. Poderá é não ser totalmente sincera. Quem mais valoriza um mercado aberto à competição é quem quer entrar e desafiar os que estão instalados. Os operadores "antigos" são mais susceptíveis de torcer o nariz, por detrás da tentativa de manterem as aparências. Podem sentir-se ameaçados pela perda de poder e de quota de mercado. E por serem forçados a reagir para sobreviver.


Pode discutir-se se faz sentido que o Estado, que deve ser um agente regulador e garante que a concorrência obedece às boas práticas, se intrometa e se assuma, também, como um competidor. Para quem partilhe a opinião de Nuno Amado, é isto que está a suceder no mercado da banca com o aparecimento do novo produto de poupança do Estado.


O facto é que os Certificados do Tesouro Poupança Mais, nascidos no final de Outubro, estão a ser um sucesso. Durante a primeira semana de vida, conquistaram mais de 200 milhões de euros e o número de subscritores aproximou-se de 11 mil. O bom andamento deste produto explica-se pela remuneração compensadora face às alternativas. E o seu lançamento não visou agravar as dificuldades dos bancos ou tentar competir com as instituições financeiras, mas apenas tentar encontrar uma resposta eficaz para um constrangimento grave.


O Governo precisa de diversificar as fontes de financiamento do Tesouro, de tentar reduzir a dependência de outros credores e de encontrar formas de se financiar a taxas de juro mais baixas do que aquelas que teria de pagar caso fosse buscar dinheiro aos mercados. Ao apostar num produto interessante para aforradores não institucionais, está a concretizar uma estratégia que visa atacar dois problemas: alargar as fontes dos recursos de que necessita e incentivar a poupança das famílias portuguesas.


É claro que o dinheiro que é aplicado nos Certificados Poupança Mais não vai para outro lado. No caso em apreço, é dinheiro que escapa aos depósitos e a outros produtos comercializados pelos bancos. Não admira, por este motivo, que as instituições financeiras se sintam beliscadas. Acontece que estão, agora, a ser incomodadas pelo facto de o Governo estar a prosseguir o interesse público. Tal como, antes, foram beneficiadas quando a remuneração dos Certificados de Aforro foi encolhida e a decisão deu origem a uma onda de resgates. Nessa altura, os banqueiros não se queixaram.

 

joaosilva@negocios.pt

 

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