João Cândido da Silva
João Cândido da Silva 28 de outubro de 2013 às 09:47

A herança de Greenspan

Sete anos depois de ter terminado um longo mandato na condução dos destinos da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan permanece como uma figura controversa.

Sete anos depois de ter terminado um longo mandato na condução dos destinos da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan permanece como uma figura controversa. Quando, em 2006, abandonou o cargo que ocupou durante 18 anos, a sua actuação merecia um aplauso quase generalizado. Mas o brilho da sua herança empalideceu, sobretudo a partir do momento em que a bolha imobiliária dos Estados Unidos estourou e a crise do "subprime" incendiou os mercados.


Há poucos dias, Paul Krugman voltou ao tema a propósito de um novo livro de Greenspan que acaba de ser publicado, com o título "The Map and the Territory". O antigo homem forte da autoridade monetária norte-americana mantém as suas convicções sobre a necessidade de evitar a regulação excessiva e deixar os mercados funcionarem, o que suscitou palavras duras por parte do vencedor do prémio Nobel da economia em 2008.


"Greenspan errou sobre tudo e não aprendeu nada". "Não está apenas a ser um mau economista, está a ser uma má pessoa". "Continua por aí, a fazer o seu melhor para tornar o mundo no lugar pior". Estes são três dos mimos com que Krugman qualificou Alan Greenspan, incentivado pelo conteúdo da sua obra mais recente.


A aura do antigo presidente da Reserva Federal estava resplandecente quando passou o testemunho a Bernanke. Com o contributo das suas opções de política monetária, os Estados Unidos tinham atravessado um ciclo de crescimento durador, com baixa inflação. E a constatação suscitava a colagem de epítetos que lhe atribuíam o estatuto de génio. Acontece que deixou três problemas graves prontos a rebentar, como acabou por se verificar pouco tempo depois.


Greenspan foi incapaz de evitar a formação de bolhas especulativas e teve de enfrentar diversos "crashes". A derradeira foi a que se instalou no sector imobiliário, alimentada por crédito farto, acessível e barato. Sabe-se como a história acabou. Noutro terreno, a troco de um forte ritmo de crescimento da economia dos Estados Unidos com estabilidade nos preços permitiu que o défice externo, vitaminado através do consumo de bens importados, crescesse como uma gigantesca bola de neve. Por fim, deu o aval a reduções de impostos que, a somar às duas guerras em que o país se envolveu durante o seu mandato, no Afeganistão e no Iraque, tornaram a possibilidade um equilíbrio nas finanças públicas numa simples miragem.


Dir-se-á que, como faz agora Paul Krugman, é fácil falar depois de as coisas acontecerem e, ainda por cima, correrem mal. Mas também é verdade não terem faltado análises que, nas vésperas de mudança de turno na Reserva Federal, recomendaram mais prudência na avaliação do trabalho de Greenspan. A maior parte das crises só são uma surpresa para quem anda desatento ou não as quer ver.

 

 

joaosilva@negocios.pt

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