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A zaragata

Uma refrega em família ameaça, desde cedo, tornar-se interminável. Os ressentimentos acumulados vão alimentando a discussão. E por cada argumento esgrimido por uma das partes, é certo que surgirá outro, do lado contrário, capaz de manter o desentendimento

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O maior banco privado português parecia estar a entrar, há pouco mais de um ano, numa nova fase do seu percurso. A transição de poderes aparentava ter sido pacífica, logo à partida por ter resultado de uma opção assumida pela sua figura de referência e de reverência. Jorge Jardim Gonçalves tinha cedido o poder executivo a Paulo Teixeira Pinto, um delfim que escapava aos parâmetros de quem apostava em alguém do núcleo de fundadores da instituição para ocupar o lugar. Tudo levava a crer que, decorridos 20 anos sobre o lançamento do BCP, uma era tinha chegado ao seu termo e outra nova estava em arranque. Sem dor, choro ou ranger de dentes, pelo menos sem a intensidade suficiente para se tornarem notados publicamente.

Uma tentativa falhada de aquisição de um banco no mercado romeno parecia um mero acidente de percurso, mas daqueles que ganham suficiente significado para conseguirem forçar uma guinada no destino. Foi desta forma que o mercado recebeu a ofensiva do BCP sobre o BPI. Tratava-se de procurar ganhar no terreno doméstico aquilo que, num apetitoso mercado emergente, tinha fugido entre as malhas da rede. Era preciso crescer. E para crescer era necessário adquirir.

Na história do BCP, a ousadia a nível interno sempre se tinha revelado compensadora. E na investida em direcção ao BPI, a história tinha possibilidades de se repetir. Uma estrutura accionista fragmentada parecia fazer da instituição-alvo uma espécie de "pato sentado", apenas à espera de levar um tiro fácil e certeiro. Acontece que, desta vez, o caçador se transformou em presa. E em presa de si próprio. Por estes dias, a guerra surda pela conquista do poder na instituição financeira mudou-se dos gabinetes privados para o espaço público. O jogo da informação e da contra-informação trava-se numa espiral de confronto em que se contam as espingardas disponíveis de cada lado da barricada.

Como sucede nas refregas familiares, já pouco importa como tudo começou ou, sequer, quem começou. Foi Jorge Jardim Gonçalves ao querer reassumir o controlo da instituição, menorizando o sucessor que designou e responsabilizando-o pelo fracasso na oferta de aquisição sobre o BPI? Ou foi Paulo Teixeira Pinto, desejoso de uma oportunidade para dar o "grito do Ipiranga" e incapaz de reconhecer nas propostas do fundador um contributo para a estabilidade do banco, como afirmam os seus adversários?
 
No álbum "A Zaragata", de Astérix, Tulius Detritus é uma personagem sinistra, cuja grande habilidade é a de semear desavenças, com o objectivo de beneficiar terceiros. Se houver um sósia a actuar no BCP, pode dizer-se que cumpre a sua tarefa com notória eficácia. E quanto a beneficiar terceiros, também não restam grandes dúvidas. O comportamento das acções em bolsa testemunham um trabalho feito com zelo e competência, do qual os accionistas mais concentrados no curto prazo não podem queixar-se. O problema é que, contando com o ano perdido enquanto esperava o desfecho dos prazos da OPA sobre o BPI, o BCP está parado há mais de um ano. Afinal, o "pato sentado" era outro.

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