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As tulipas não morrem

Na gíria dos mercados de capitais, as "bolhas" correspondem a uma situação de risco elevado de perdas.

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Na gíria dos mercados de capitais, as "bolhas" correspondem a uma situação de risco elevado de perdas.


Surgem quando os valores dos activos descolam dos dados fundamentais que os sustentam. Crescem sob a pressão de uma procura tão confiante quanto imprudente, que acredita na manutenção da tendência de subida. O estouro e as perdas consequentes costumam ser apenas uma questão de tempo. Qualquer investidor experiente e imune a modas sabe que as "bolhas" rebentam. Em muitas ocasiões, só não sabe dizer quando.


A euforia em redor das acções de empresas da Nova Economia é um dos exemplos clássicos. No virar de século, empresas que nunca tinham obtido lucros durante a sua curta existência, mas que prometiam rendibilidades estonteantes nos seus planos de negócios, atraíram milhares de investidores ávidos de enriquecer sem esforço, mais baseados nas tendências do momento do que na racionalidade das decisões.


A febre foi tão longe que, na época, um "cartoon" que se tornou célebre mostrava dois pedintes numa esquina. Um deles exibia um cartaz em que prometia "trabalhar em troca de comida". Não tinha sucesso. O chapéu que era suposto acolher o produto da compaixão alheia estava vazio. O outro contrastava. Por debaixo de um cartaz em que se mostrava disponível para "trabalhar em troca de comida.com", tinha acumulado uma apreciável fortuna em notas e moedas que os transeuntes lhe atiravam com notório entusiasmo.


Por mais que as vozes avisadas avivem a memória dos mais esquecidos, as "bolhas" rebentam num lado, mas aparecem noutro qualquer. Depois das "dotcom", chegou a vez do imobiliário e do crédito hipotecário. Sabe-se como começou e quais os efeitos graves que provocou e ainda provoca. Mas também é apenas uma questão de tempo até aparecer a "bolha" seguinte, alimentada por investidores mal informados, focados nos ganhos de curto prazo, motivados a arriscar porque ouviram dizer que alguém fez ganhos fabulosos.


A natureza humana, e não apenas a daqueles que procuram oportunidades mas que não são profissionais, é o que é. E, por vezes, a ânsia de ter mais de forma fácil e rápida leva a que se percam duas coisas: a cabeça e o dinheiro. Procurar que os potenciais investidores estejam mais alertados e disponham de mais conhecimentos deve ser um objectivo de todas as partes envolvidas nos mercados de capitais, mas nem isto poderá ser suficiente.


Quando a irracionalidade ataca, não há vacina que a trave. Se os exemplos históricos fossem uma cura definitiva para os disparates financeiros, a loucura das tulipas nos Países Baixos do século XVII teria dado conta do problema há perto de 400 anos. Onde há mercados, há "bolhas". Apanhá-las quando já o são é o melhor caminho para encontrar perdas onde se pretendia achar a fortuna.

 

 

joaosilva@negocios.pt

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