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Crescer, mas como?

"Fazer do crescimento uma prioridade política é incontroverso (afinal, quem poderia estar contra?). Mas a verdadeira questão é: o que pode a Europa fazer para gerar crescimento? A resposta honesta é: muito pouco".

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"Fazer do crescimento uma prioridade política é incontroverso (afinal, quem poderia estar contra?). Mas a verdadeira questão é: o que pode a Europa fazer para gerar crescimento? A resposta honesta é: muito pouco". As palavras são do economista Daniel Gros. E representam um contributo para colocar alguma sensatez no discurso daqueles que reivindicam mais crescimento a curto prazo, mas sem explicarem como se pode alcançar o objectivo.

Em tempos normais, a receita seria evidente. Com as contas públicas controladas, o endividamento dos Estados em níveis razoáveis e o acesso ao financiamento a decorrer sem problemas, seria relativamente simples desenhar um plano de investimentos destinado a reanimar as economias europeias, a começar por aquelas que precisam que a variável do crescimento dê uma ajuda para solucionar os pesadelos financeiros. Acontece que estes não são tempos normais. E sucede, também, que em matéria de estímulos à aceleração da actividade, nem sempre a Europa fez boas escolhas. Pelo contrário.

Os exemplos são numerosos. Portugal foi um dos grandes beneficiários de fundos provenientes dos cofres comunitários desde que aderiu à União Europeia. E até desfrutou da oportunidade de ver reforçadas as ajudas financeiras quando se iniciou a caminhada para a União Económica e Monetária. Durante anos a fio, políticos e burocratas que fizeram a gestão dos fundos e que decidiram em que seriam aplicados, preocuparam-se mais com as taxas de execução do que com a qualidade dos projectos. Gastou-se o dinheiro, mas a competitividade e o potencial de crescimento da economia portuguesa não largaram a trajectória descendente.

A "agenda de Lisboa" foi outro rótulo que serviu mais para aparentar que os líderes europeus estavam atentos e disponíveis para fazer alguma coisa pela afirmação da União Europeia no quadro da globalização do que para realizar os objectivos que proclamou. A meta era ambiciosa. Fazer da Europa, numa década, a potência mais competitiva do Mundo. Pouco mais de 12 anos depois, será necessária uma lupa de grande potência e uma enorme dose de boa vontade para vislumbrar resultados que tenham uma vaga semelhança com aquilo que foi prometido e vendido como a panaceia para as doenças do Velho Continente.

O combate à "grande recessão" é o exemplo mais recente. Num primeiro momento, era preciso abrir os cordões à bolsa, esquecer a consolidação orçamental e injectar dinheiro na economia, desse por onde desse. Depois da letargia embalada pela solidez de uma moeda única que iria servir de escudo protector para todos os disparates cometidos nas políticas económicas, os credores despertaram. Não gostaram daquilo que viram e começaram a cobrar taxas de juro mais elevadas àqueles países que tinham economias mais frágeis e, por isso, maior risco de virem a experimentar dificuldades futuras no cumprimento dos compromissos. Seguiram-se os travões a fundo na estratégia despesista.

Daniel Gros não está sozinho. Ao director do Centro de Estudos Políticos Europeus soma-se a voz de outros economistas, insuspeitos de ortodoxia na defesa da necessidade de os países do euro terem finanças mais saudáveis como meio para alcançarem mais crescimento a médio prazo. A austeridade necessária no curto prazo não exclui que se discutam medidas que ajudem a retirar a Zona Euro da anemia. Convém que, desta vez, o intuito não seja o de gastar, mas o de gastar bem. A "eurolândia" já está metida num buraco fundo. Não é preciso cavar mais.



joaosilva@negocios.pt
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