João Cândido da Silva
João Cândido da Silva 30 de outubro de 2013 às 23:02

Debaixo do tapete

Há um ano, Pedro Passos Coelho fez uma das suas afirmações mais polémicas. Chocava de frente com os apelos ao aumento da taxa de poupança que eram coerentes com o discurso de que Portugal tinha vivido, durante anos, acima das suas possibilidades. E, de forma indirecta, assumia o fracasso na avaliação do impacto das medidas de austeridade sobre o consumo privado e o crescimento da economia. Para o primeiro-ministro, parecia que a desejada retracção tinha ido longe demais.

Questionado, numa entrevista, sobre as dificuldades na cobrança fiscal, Pedro Passos Coelho declarou "que muita gente, por receio ou por precaução, tinha dinheiro para gastar e não gastou. As pessoas podiam ter comprado automóveis". Isto "tem um efeito positivo", prosseguiu, porque "saiu menos dinheiro do país, mas as receitas fiscais baixaram". Endireitar o défice externo, através da contenção nas importações, tinha comprometido a redução do desequilíbrio nas finanças públicas. Depois da "ordem" para poupar, chegara a hora de gastar?

A taxa de poupança foi, nas décadas mais recentes, uma fonte de preocupação para quem observou a sua evolução e nela viu motivos para temer o futuro. Em 2008, atingiu o nível mínimo de 6%. Depois, a eclosão da crise financeira e da recessão incentivou uma inversão no comportamento. Os números mais recentes mostram que se situa, agora, acima do dobro daquele valor, o que coloca o país em boa posição quando é comparado com os seus principais parceiros desenvolvidos.

Poupar corresponde a sacrificar um consumo, hoje, para poder fazê-lo mais tarde e dispondo de um maior poder de compra, no caso de o produto em que se aplica o dinheiro proporcionar uma remuneração superior à taxa de inflação. A acumulação de poupança representa, também, capacidade de financiamento de novos investimentos no futuro, o que é determinante para a boa saúde da economia. No curto prazo, há um custo a suportar. Menores gastos de consumo em bens e serviços perturbam o ritmo de crescimento da economia, situação que o desempenho recente de Portugal testemunha.

As declarações do primeiro-ministro inspiraram a interpretação de que se tratava de um apelo ao aumento da despesa das famílias, mas a subida da taxa de poupança traz mais vantagens do que inconvenientes, caso a análise seja dirigida para um horizonte mais largo do que o imediato. Se o tema da volumosa dívida pública tem mobilizado uma boa parte do debate político e económico em Portugal e na Zona Euro, há outra "bomba" que tem ficado meio esquecida, debaixo do tapete. Chama-se dívida privada e não falta quem a aponte como um problema bem mais grave do que a montanha de compromissos que o Estado construiu e lançou sobre as costas dos contribuintes.

Os números de 2012 são elucidativos. Dois anos e meio da totalidade do produto interno bruto de Portugal não seriam suficientes para pagar os créditos que foram contraídos por famílias e empresas. Nos casos mais dramáticos, os encargos excessivos em relação aos rendimentos têm resultado em insolvências. Noutros, o esforço de amortização dos créditos, necessário para baixar a dívida privada para níveis sustentáveis, trava o consumo e desvia recursos que, noutras circunstâncias, podiam ser destinados a investimento.

Nesta matéria, Portugal não está sozinho. Na Zona Euro, até existem parceiros que não têm problemas, para já, nas finanças públicas, mas estão a braços com um mar de dívida privada. É um consolo? É, mas é um fraco consolo. Por isto é que, se o Governo tem margem, deve cumprir a promessa de estimular a poupança. Mudar de vida passa por aqui.

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