Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
João Cândido da Silva joaosilva@negocios.pt 19 de Abril de 2010 às 11:31

Discípulos de Ponzi

O "esquema de Ponzi" é uma forma fraudulenta de fazer fortuna com que os portugueses estão familiarizados. O que talvez não esperassem era que o modo de vida seguido nos últimos anos em Portugal acabasse por merecer aquela qualificação pouco...

  • Assine já 1€/1 mês
  • 14
  • ...
O "esquema de Ponzi" é uma forma fraudulenta de fazer fortuna com que os portugueses estão familiarizados. O que talvez não esperassem era que o modo de vida seguido nos últimos anos em Portugal acabasse por merecer aquela qualificação pouco abonatória, comparando o país a uma gigantesca "Dona Branca".

Foi isto que sucedeu, na semana passada, através de um artigo assinado por um ex-economista-chefe do FMI e pelo editor do influente "Financial Times". O carimbo escolhido é duro de engolir, mas o raciocínio que lhe serve de base justifica a escolha de uma imagem forte e que se juntou a outras declarações que traçam um futuro imediato turbulento.

Como as fraudes mais recentes no investimento em selos ou a actuação de Bernard Madoff vieram recordar, um "esquema de Ponzi" precisa de angariar novo capital para remunerar e reembolsar quem entrou mais cedo na pirâmide. Olhando para o percurso de endividamento que Portugal trilhou ao longo dos últimos anos, os dois analistas concluíram aquilo que já foi denunciado por outros protagonistas, embora com o recurso a figuras de estilo menos imaginativas.

A acumulação, ano após ano, de défices externos que andaram em redor de 10% do produto por cada exercício, significou que o País esteve a recolher recursos financeiros nos mercados que começaram por sustentar uma vida acima das possibilidades. E que está a acabar por servir para contratar novos empréstimos com o objectivo de assegurar a satisfação dos compromissos assumidos com dívida contraída anteriormente. Desta observação até à conclusão de que o País se transformou num seguidor dos métodos de Charles Ponzi foi só um pequeno passo.

Pode-se ser da opinião que estas tiradas, bem como as comparações com a Argentina ou com a situação actual da Grécia, são meros "disparates" ou manifestações de "ignorância", como fez o ministro das Finanças. Mas não se pode ignorar que, por detrás da força das palavras, está uma bola de neve que os mercados conhecem.

A acumulação de dívidas não significa, só por si, que a liquidez venha a faltar no imediato. Mas constitui o motivo por que o risco para os credores é cada vez mais elevado e o preço a pagar por novos financiamentos terá que ser progressivamente mais elevado, o que coloca em causa a viabilidade deste caminho perigoso e necessitado de correcção.

Nos "esquemas de Ponzi", chega o dia em que não há mais dinheiro a entrar para depois sair, de imediato, pela porta do lado. É o momento em que o escândalo estoura e os "investidores" descobrem a amarga realidade de terem perdido o seu dinheiro. Quando está em causa um país, as nuvens negras que se formam representam a possibilidade real de atingir o estado de insolvência.

A sucessão de alertas que está a invadir o espaço público sobre a situação financeira portuguesa pode tentar ser descartada com retórica. Mas é um sinal de que as palavras estão longe de ser remédio suficiente para persuadir os mercados de que os males estão a ser atacados e vão continuar a sê-lo. Pior: o plano de estabilidade aprovado não dissipou as dúvidas de que o "esquema de Ponzi" é uma ficção.

joaosilva@negocios.pt






Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias