João Cândido da Silva
João Cândido da Silva 07 de outubro de 2013 às 09:37

Macacos de imitação

Livre concorrência, uma regulação que impeça abusos e uma supervisão atenta e actuante são três pilares essenciais de um mercado saudável, capaz de proporcionar benefícios aos consumidores.

Livre concorrência, uma regulação que impeça abusos e uma supervisão atenta e actuante são três pilares essenciais de um mercado saudável, capaz de proporcionar benefícios aos consumidores. E, numa conjuntura como a que Portugal atravessa actualmente, a confiança e a oferta de produtos que satisfaçam os interesses dos clientes são um meio para que a taxa de poupança aumente, uma ajuda fundamental para corrigir os graves desequilíbrios que conduziram Portugal a uma situação de emergência financeira.


Estas constatações vêm a propósito da competição que está a verificar-se entre instituições financeiras e o próprio Estado pela captação de recursos das famílias portuguesas. O Governo actual está a conseguir ressuscitar os tradicionais certificados de aforro, depois de ter introduzido alterações na fórmula de cálculo da respectiva taxa de juro.


Após anos consecutivos de resgates elevados que sangraram aquela que, durante décadas, foi a aplicação preferida de milhares de aforradores, as subscrições voltaram a superar os levantamentos. O facto é tanto mais relevante quando se sabe que o acesso aos mercados por parte do Estado se mantém fechado, sobretudo quando está em causa a captação de fundos de médio e longo prazo. A diversificação das fontes de financiamento é determinante para reconquistar a autonomia perdida em Maio de 2011.


A nova fase de sucesso dos certificados parece ter inspirado aos bancos a táctica que aconselha a não tentar inventar nada se o mais simples e eficaz é imitar a receita que conduziu aos triunfos alheios. Nos tempos mais recentes, surgiram no mercado produtos que são uma fotocópia quase idêntica ao original. Taxa de juro indexada, prémios pelo reforço da aplicação, pagamentos periódicos de rendimentos e, mais importante, com a possibilidade de capitalização que aumenta o potencial de rendibilidade, são características destes "macacos de imitação". Até no nome as semelhanças são óbvias. A expressão "aforro" costuma fazer parte do nome de baptismo das novas armas com que os bancos se dispõem a competir com o Estado.


A aposta na colocação de produtos que podem ter uma remuneração mais interessante do que aquela que é fornecida pelas alternativas não dispensa que cada investidor faça a sua reflexão sobre se esta oferta se ajusta aos objectivos que pretende prosseguir com a sua poupança. Mas a possibilidade de se poder escolher entre "certificados" concorrentes, é uma boa notícia para quem decida que é nestes terrenos que quer semear o seu dinheiro.


Há um pormenor que não deve ser esquecido. "Baixo risco" é um carimbo que, em circunstâncias normais, se pode aplicar a estes produtos. Mas na situação actual há que relativizar. O sistema financeiro está a curar as feridas abertas pela crise e, com a notação de crédito ao nível de "lixo", o Estado ainda tem mau nome no mercado.

 


joaosilva@negocios.pt

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