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João Cândido da Silva joaosilva@negocios.pt 14 de Dezembro de 2007 às 14:00

O dia seguinte

O Governo definiu duas grandes prioridades para o semestre em que lhe coube assegurar a Presidência Europeia: a realização da cimeira entre líderes europeus e africanos e a assinatura do Tratado de Lisboa.

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O Governo definiu duas grandes prioridades para o semestre em que lhe coube assegurar a Presidência Europeia: a realização da cimeira entre líderes europeus e africanos e a assinatura do Tratado de Lisboa.

Conseguiu realizar os dois objectivos e, sob o ponto de vista formal, a sua actuação aparenta ter sido um sucesso. No calor das celebrações, José Sócrates chegou a garantir que ambos os eventos vão ficar registados na História. Pode ser que sim. Mas o primeiro-ministro esqueceu-se de explicar o que ganham os cidadãos dos 27 com estes êxitos.

Na chamada "construção europeia" tem-se acentuado a tendência para avançar com a sensibilidade de um rolo compressor.

Os projectos são cozinhados e aprovados nos restritos círculos do poder para serem vendidos, posteriormente, como o caminho único para reforçar a solidez da União Europeia, o seu papel no mundo e o bem-estar geral da comunidade que vive e trabalha no interior das suas fronteiras. Foi assim que, também em Lisboa mas na anterior Presidência, se acertou a receita para fazer da Europa a região mais competitiva do globo pelo final da actual década. Depois de esgotado o fogo de artifício, restou um crescimento modesto e um conjunto de intenções que não conseguiu superar o teste impiedoso da realidade prática.

Quem observa o aparato de cerimónias como a que ontem decorreu no cenário do Mosteiro dos Jerónimos percebe que algo de importante deverá estar a acontecer. Mas tem razões para acreditar que pouco ou nada mudará de substancial nas suas vidas. Se há uma Europa a duas velocidades, é a que se divide entre uma elite que comunga do "espírito europeu" como quem professa uma religião, desprezando os infiéis que se atrevem a duvidar dos dogmas.

Entre as solenes proclamações que caracterizaram os discursos de ontem, transmitiu-se o cenário radioso de uma Europa que entra numa nova era. E foi pedido aos responsáveis políticos presentes o mais forte empenho político para que a ratificação decorra sem problemas.

Traduzindo, foi sugerido que se evitassem referendos para que a vistosa página da História que terá ficado escrita não venha a ser manchada pela eventual impertinência de eleitores que alimentem ideias diferentes sobre a matéria.

O contributo de cidadãos franceses e holandeses no enterro da anterior proposta de Tratado Constitucional, através da legitimidade do voto democrático, não foi interpretada como um aviso sério para que se escute mais antes de decidir.

Para os adeptos do "ideal europeu", tal como ele é visto a partir do topo, foram apenas episódios arreliadores que servem para sustentar a tese de que, em matérias de tão elevada complexidade, o melhor, mesmo, é evitar que uns milhões de irresponsáveis estraguem uma festa para a qual nem foram convidados. A táctica já tem a força de uma tradição.

Os eleitores dinamarqueses tiveram que votar duas vezes sobre a adesão ao euro. Provavelmente, teriam sido chamados às urnas numa terceira ocasião, caso, entretanto, não se tivessem mostrado maioritariamente dóceis em relação ao "espírito europeu".

Afirmar que a União Europeia acabou ontem com uma grave crise institucional é um evidente exagero. Não há registo de que as instituições tenham estado paralisadas nos dois últimos anos e existem provas de que, mesmo após o alargamento a 25 países, funcionaram com uma notável fluidez. Para lá do frenesim da propaganda, chegou a hora de debater o que se ganha e o que se perde e de dar a oportunidade aos eleitores para que se pronunciem. José Sócrates prometeu fazê-lo. Se quer ficar para a História, terá que saber honrá-la também no dia seguinte.

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