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O nó da poupança

Na bolsa de Lisboa, o período entre Julho e Setembro passados foi o pior trimestre desde o "crash" que se prolongou até Março de 2009 após a falência do Lehman Brothers.

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Na bolsa de Lisboa, o período entre Julho e Setembro passados foi o pior trimestre desde o "crash" que se prolongou até Março de 2009 após a falência do Lehman Brothers. Se a bolsa é um indicador avançado da evolução da economia, o mercado de acções português sinaliza que os próximos meses não vão trazer boas notícias.

Os dados qualitativos sobre a actividade em Portugal seguem as indicações dadas pela bolsa. Os inquéritos ao consumo elaborados pelo Instituto Nacional de Estatística antecipam uma quebra forte nas despesas de consumo, a maior dos últimos dez anos. E o mesmo INE revelou que a taxa de poupança, que seria saudável que se encontrasse em crescimento, caiu durante o segundo trimestre.

Em circunstâncias normais, a redução abrupta do consumo, que tem um peso em redor de 60% no produto português, daria lugar a uma subida da poupança interna, cuja fragilidade somada ao excessivo endividamento são a causa dos desequilíbrios que o país está a forçado a corrigir.

Acontece que as medidas de aumento da carga fiscal e de redução de salários na Função Pública que já entraram em vigor com o objectivo de reduzir o défice público estão a provocar um efeito diverso. Há uma quebra do rendimento disponível, o que reduz a capacidade das famílias para conseguirem colocar de parte uma parcela dos rendimentos.

A fraca propensão para a poupança que já era revelada antes das medidas de austeridade é agravada pelo facto de o Estado precisar de endireitar a sua situação financeira, rapidamente e em força. Resultado: o que é subtraído à poupança vai para os cofres públicos através dos impostos. E a tendência vai ser agravada. Agora, com a subida do IVA sobre os consumos energéticos. Mais tarde, através de outras iniciativas já anunciadas como a redução das deduções em sede de IRS.

Há outro fenómeno que poderá ajudar a compreender por que motivos consumo e poupança estão em queda, em simultâneo. As famílias que ainda podem fazê-lo, estarão a resistir à deterioração do seu padrão de vida. Vêem baixar os rendimentos mas preferem sacrificar a constituição de poupança para utilizar no futuro e tentar manter os níveis de consumo actuais. Se a crise era vista como um factor determinante para se mudar de vida para um estilo mais frugal, há quem ainda não esteja disposto a fazer alterações radicais.

Resta a questão de saber o que fazer ao dinheiro nos casos em que ainda há margem para poupar ou em que há vontade de consumir menos para aumentar o pé-de-meia. As descidas na bolsa de Lisboa não promovem a confiança. As incertezas sobre os bancos e o próprio futuro de Portugal no euro também não ajudam. Tão cedo, não haverá condições para desfazer este nó.
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