João Cândido da Silva
João Cândido da Silva 11 de novembro de 2013 às 09:53

O silêncio da artilharia

"Surpreendente" é a palavra adequada para qualificar a decisão que o Banco Central Europeu anunciou na semana passada.

"Surpreendente" é a palavra adequada para qualificar a decisão que o Banco Central Europeu anunciou na semana passada. Se estivesse em causa tentarem ganhar uma fortuna através de uma casa de apostas, os três economistas que, num total de 68 consultados pela Bloomberg, adivinharam que Mario Draghi iria baixar a taxa de juro de referência da autoridade monetária da Zona Euro teriam conseguido cumprir o objectivo.


A maioria acreditava que o BCE iria assumir a medida antes do final deste ano, em Dezembro, mas a instituição de Frankfurt baralhou as previsões. Os números da inflação relativos a Outubro passado fizeram soar os alarmes no interior do BCE, com o ritmo de crescimento dos preços a cair para 0,7% e a aproximar-se perigosamente do limiar a partir do qual uma situação de deflação pode lançar a Zona Euro numa espiral desastrosa.


Que impacto podem esperar as famílias que estão na posição de devedoras em contratos de crédito à habitação? Com a taxa de referência do BCE agora fixada em 0,25%, a expectativa é a de que venham a beneficiar de uma descida das prestações mensais, tanto mais ampla quanto mais recente seja o empréstimo e mais longo seja o seu prazo de amortização.


Os restantes benefícios poderão surgir se a redução do preço do dinheiro agora decidida for eficaz para evitar a deflação, uma situação que faz aumentar as taxas de juro reais e que penaliza, por este facto, quem deve dinheiro. Indirectamente, e a prazo, taxas de juro mais baixas poderão insuflar algum ânimo numa economia da Zona Euro que está anémica. As mais recentes previsões de Bruxelas foram revistas em baixa e antecipam um aumento da actividade de 1,1% no espaço da moeda única em 2014. A projecção indica um ritmo modesto de crescimento e, ainda assim, incerto.


Um dos motivos de preocupação está no facto de as medidas mais agressivas na gestão das taxas de juro não estarem a produzir os impactos desejados junto da economia real. Taxas de juro baixas deveriam funcionar como um impulso ao investimento, mas a questão é que o crédito se mantém escasso, as margens cobradas pelos bancos anulam os estímulos que o BCE tenta introduzir e as instituições financeiras da Zona Euro ainda terão de atravessar um mar de dificuldades para que a confiança seja restabelecida. De acordo com a Standard & Poors, os bancos da moeda única europeia precisarão de mais 95 mil milhões de euros para reforçarem os seus capitais.


Se poucos acreditaram no momento em que o BCE baixaria a sua taxa de juro de referência, muitos outros analistas consideram que será necessário a instituição fazer mais para tentar furar os bloqueios que pesam sobre o crédito às empresas. Injecções de liquidez suscitam o perigo da inflação, mas o perigo, agora, é o inverso, porque não usar a artilharia?

 

 

joaosilva@negocios.pt

 

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