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João Cândido da Silva joaosilva@negocios.pt 13 de Dezembro de 2007 às 15:52

Os cinco e a crise

Quando cinco bancos centrais decidem articular a sua actuação com o objectivo de injectar liquidez no mercado e ajudar a superar problemas de financiamento no sistema financeiro, o comum dos mortais deve ficar apreensivo. Enquanto os bancos não mostram re

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Quando cinco bancos centrais decidem articular a sua actuação com o objectivo de injectar liquidez no mercado e ajudar a superar problemas de financiamento no sistema financeiro, o comum dos mortais deve ficar apreensivo. Enquanto os bancos não mostram receio de emprestar dinheiro aos seus pares, não há razões para alarme.

Mas quando sobem o preço a que estão dispostos a fazê-lo ou, simplesmente, começam a fechar a torneira, é porque o horizonte é bem capaz de estar carregado de nuvens negras e que a tempestade não tardará a desabar sobre a cabeça dos inocentes.

Ontem, após terem sido divulgados os comunicados das autoridades monetárias dos Estados Unidos, Zona Euro, Suíça, Canadá e Reino Unido, as bolsas reagiram em tom positivo. O objectivo imediato estava alcançado. A subida das cotações mostrou como a mão protectora dos banqueiros centrais era desejada para incutir alguma confiança em investidores que, nos meses mais recentes, têm navegado num mar de volatilidade. No dia anterior, a Reserva Federal tinha já dado mostras de sensibilidade em relação ao problema, cortando, pela terceira vez em três meses, a sua taxa de juro de referência. Estava dada a resposta à quebra de expectativas de consumidores e empresas norte-americanas.

Observada a partir deste ponto de vista imediatista, a actuação dos bancos centrais parece estar a evoluir no sentido correcto. Prevenir os efeitos perniciosos da crise do "subprime" e da dispersão dos seus riscos à escala global está no topo das prioridades. E evitar, por acréscimo, que a economia dos Estados Unidos entre em súbito arrefecimento, tentando estimular o dinamismo da sua procura interna, apresenta-se como a solução razoável para quem pretende travar danos de maior dimensão na transmissão dos problemas financeiros à economia real.

As cotações animaram. É um facto. Mas sucede que, para além do alívio das dores de curto prazo, a doença pode ser muito mais grave do que aquilo que o nervosismo reactivo dos índices pode fazer crer. A cura que está a ser aplicada ameaça aprofundar algumas feridas, sobretudo numa Europa já causticada por um dólar fraco em contrapartida de um euro perigosamente forte. A factura que vai ser paga está expressa nas previsões que apontam para um abrandamento da actividade no reino da Eurolândia no próximo ano.

Este é um dos aspectos do lado menos risonho na concertação entre os cinco bancos centrais. O investidor que ganha confiança ao saber que instituições emissoras de sinais determinantes para o destino dos mercados estão apostadas em evitar o desastre, também deve questionar-se sobre o que estarão a ver os responsáveis que ocupam a torre de comando que o vulgar interveniente não consiga, ainda, vislumbrar.

Em pleno Verão passado, quando as primeiras ondas de choque interromperam um ciclo de alta nos mercados, vivido praticamente sem hesitações desde o estouro da "bolha" tecnológica, eram os bancos centrais os primeiros a reconhecer ser necessário deixar passar o tempo para conseguir apreender a verdadeira extensão dos estragos provocados pelos incumprimentos nos créditos de alto risco nos Estados Unidos. Se esse prazo para recolha de conhecimento já passou e se os banqueiros centrais decidiram, agora, actuar em conformidade, o que viram não deve ter sido bonito. Um banco central a injectar liquidez, preventivamente, no mercado, dá motivos para preocupação. O que pensar quando em vez de um são cinco, e dos grandes, a decidir fazer o mesmo?

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