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Quando o remédio mata

Pedro Teixeira Duarte é um empresário discreto. Foge da exposição pública e cultiva a distância com zelosa dedicação. Não se lhe conhecem hábitos ou “hobbies”. Se o BCP não estivesse, há meses, mergulhado em conflitos e divergências, seguramente que não h

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Após uma breve interrupção, o programa Millennium promete seguir por mais alguns largos momentos. As negociações sobre a proposta de fusão com o BPI varreram para debaixo do tapete as divisões cruzadas entre órgãos sociais e accionistas. Mas a operação que abria uma oportunidade de clarificação fracassou e as fragilidades voltaram a ver a luz do dia. O tempo passa e o BCP serve mais do mesmo. Com Pedro Teixeira Duarte a retomar os contactos para alcançar um objectivo que, a ser cumprido, estará próximo de merecer a classificação de milagre.

Agora, como nos meses que antecederam a iniciativa do BPI, o empresário aposta os seus esforços em conseguir um consenso alargado entre accionistas. Fazendo uso da sua posição privilegiada para funcionar como ponte entre a tradição e a renovação, pretende pacificar o banco e mudar o sistema de governo. Move-se em terreno armadilhado. Jorge Jardim Gonçalves é um dos busílis da questão e não desimpedirá o caminho, como pedem os seus adversários, à força de empurrões.

A muralha que protege o fundador da instituição tem alicerces sólidos. Chama-se blindagem de estatutos e, ironia do destino, foi a construtora Teixeira Duarte que ajudou a erguê-la, ao ponto de aparentar, actualmente, ser inexpugnável. O investidor que tenta ultrapassar obstáculos vê-se forçado a provar do seu próprio veneno. Se a limitação de direitos de voto é um instrumento que defende investidas indesejadas por parte de quem manuseia os cordelinhos do poder, o reverso está no facto de dificultar a formação de “núcleos duros” capazes de pensar e executar uma estratégia. Ou seja, aquilo de que o BCP anda mais necessitado.

A tarefa de Pedro Teixeira Duarte é semelhante à de juntar os cacos depois de a louça se ter quebrado. Para dispor das condições exigidas pelo pacto social do BCP em matérias como a alteração do modelo de governo, tem que lidar com demasiadas peças. Por falta de músculo financeiro ou porque o limite de voto fixado em dez por cento torna desproporcionada a relação entre investimento e poder de decisão no interior da instituição, é preciso colocar de acordo um número elevado de interesses. E entre diligências para agradar a gregos e troianos, só a especulação sobre possíveis ofertas públicas de aquisição vai atenuando as perdas para todos os accionistas.

Nas recomendações da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, a blindagem de estatutos é vista com antipatia mas não é tratada como um inimigo a abater. É pena, porque a prática discrimina investidores que era suposto estarem em pé de igualdade, trava a mudança e prejudica os accionistas que a tentem promover. A instabilidade no Millennium comporta uma lição. Demonstra como o remédio que escuda a fortaleza contra ameaças externas, também pode ajudar a enfraquecê-la.

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