João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 18 de dezembro de 2013 às 00:01

A coligação de Merkel

Uns quantos imponderáveis podem obrigar Berlim a rever posições que implicam mais do que a manutenção de políticas austeritárias de consolidação orçamental num quadro de ameaças de deflação.

 

A alta dos custos da energia e o aumento do desemprego são dois problemas previsíveis para o governo de coligação de Angela Merkel, mas diferendos na Europa baterão bem mais cedo à porta do que se espera em Berlim.

Ao líder social-democrata, Sigmar Gabriel, com a pasta da Economia e Energia, cabe concretizar o objectivo de levar a produção de energia oriunda de fontes renováveis a passar dos actuais 25% para 40% a 45% até 2025 de forma a atingir os 55% a 60% uma década mais tarde.

Desde o anúncio por Merkel, em Maio de 2011, na sequência do desastre de Fukushima, de que as 17 centrais nucleares alemãs seriam encerradas até 2022 os custos de reconversão têm sido constantemente revistos.

O programa de governo, atendendo a eventuais objecções da Comissão Europeia quanto a práticas anticompetitivas, prevê que parte dos subsídios a projectos de energias renováveis sejam pagos directamente pelos contribuintes e o pacote legislativo a aprovar no próximo Verão será necessariamente polémico.

A moratória sobre a exploração do gás de xisto contribuirá, igualmente, para uma alta dos custos energéticos.

Competitividade em queda

O aumento do desemprego, sobretudo nas profissões menos qualificadas e nos estados do Leste, com a introdução de um salário mínimo de 8,50 €/hora a partir de 2015 e com cobertura nacional em 2017 e a limitação de contratos a prazo a um máximo de 18 meses poderão contribuir, ainda, para deteriorar a capacidade competitiva alemã.

O aumento de produtividade anual por trabalhador entre 2005 e 2012 quedou-se em 0,5% e na falta de financiamentos de vulto para as áreas de pesquisa e desenvolvimento (que deverá cifrar-se em 3% do PIB, de acordo com o programa da coligação) inovações tecnológicas ou de gestão não têm dinamizado a economia alemã que apresenta um baixo nível de investimento privado e público (17% do PIB).

As concessões dos conservadores aos sociais-democratas deixaram de lado aumentos da carga fiscal para particulares e empresas, mas, também tiveram como contrapartida um fruste aumento a quatro anos de 23 mil milhões € em investimentos que mal cobrem as necessidades de restauro de infra-estruturas.

A redução da idade de reforma de 67 para 63 anos para quem tenha 45 anos de carreira contributiva vai, por seu turno, ao arrepio das projecções demográficas, tendo em conta que os maiores de 65 anos representarão 29% da população em 2030 e 34% em 2060 e o segmento em idade laboral, rondando presentemente os 50 milhões, está em declínio acelerado.

A via teutónica

O social-democrata, Frank-Walter Steinmeier, com a pasta dos Negócios Estrangeiros tal como no governo de "Grande Coligação" de 2005-2009, e Wolfgang Schäuble, nas Finanças, manterão a recusa de mutualização de dívida pública, emissão solidária de obrigações ou transferências de poderes para entidades federais numa união bancária que possa acarretar maiores compromissos financeiros por parte da Alemanha.

Uns quantos imponderáveis podem, contudo, obrigar Berlim a rever posições que implicam mais do que a manutenção de políticas austeritárias de consolidação orçamental num quadro de ameaças de deflação.

A Ocidente um referendo sobre a manutenção do Reino Unido na União Europeia condicionará os equilíbrios entre as principais capitais se bem que o primeiro choque deva ocorrer logo em Maio com a esperada alta do voto de protesto em partidos contestários dos tratados da União nas eleições para o Parlamento Europeu.

Os desequilíbrios estruturais no bloco do euro, mitigados conjunturalmente pelas reduções de défices orçamentais e das balanças de transacções correntes, além do retorno ao crescimento económico, à excepção de Chipre, tornam patente uma dificuldade crescente de articulação institucional.

Governos, Comissão Europeia, BCE e o Parlamento Europeu não têm condições de definir estratégias estratégias de integração política, financeira e económica por via de reformas institucionais, englobando, além disso estados fora da zona euro, por carência de apoio da parte dos eleitorados nacionais.

A capacidade de iniciativa

O fracasso da política de parceira estratégica com países do Leste europeu, muito em particular a Ucrânia, implica que Berlim tenha de assumir a curto prazo, sob pena de irrelevância estratégica, iniciativas de política energética, económica e comercial a contento dos países mais sujeitos a pressões de Moscovo.

A coligação de Berlim terá ainda de superar notórias divergências quando for necessário em encetar acções que impliquem a projecção de poder militar com empenhamento real em acções de combate em articulação com estados aliados, essencialmente a França e o Reino Unido, além dos Estados Unidos, a que Merkel tal como os antecessores se tem escusado.

Até hoje Angela Merkel geriu crises, actuando de forma reactiva e evitando rupturas, sem que tenha levado a bom porto qualquer reforma de fundo na Alemanha e na União Europeia. Nos próximos quatro anos cumpre mostrar se tem estofo de estadista.


Jornalista

barradas.joaocarlos@gmail.com

http://maneatsemper.blogspot.pt/


pub

Marketing Automation certified by E-GOI