João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 21 de março de 2017 às 20:01

A Primavera da Crimeia

Fanfarras e manifestações de regozijo assinalaram na Crimeia o terceiro aniversário da anexação por Moscovo, enquanto o Kremlin deu novos sinais de pretender aumentar o controlo de regiões em disputa com a Geórgia e a Ucrânia.

A anexação da República Autónoma da Crimeia e de Sevastopol, cidade com estatuto de região administrativa no ordenamento jurídico da Ucrânia, é esmagadoramente aceite na Rússia e nenhum político da oposição contesta a integração.     

 

Sondagens realizadas recentemente por instituições credíveis ("Centro Levada" e "Centro Russo de Estudo da Opinião Pública") indicam que mais de 80% dos inquiridos consideram a Crimeia parte da Rússia, ainda que cerca de 20% admitam consequências negativas derivadas da anexação, sobretudo devido às sanções impostas pela UE e dos EUA.

 

Para os cerca de 2 milhões de habitantes da península (65% de russos, 16% de ucranianos e 12% de tártaros, além de outras minorias), a chamada Primavera da Crimeia é apresentada pela propaganda do Kremlin como motivo de júbilo, apesar da degradação das condições económicas.

 

A mitologia política vigente faz tábua rasa do domínio tártaro dos séculos XV a XVIII, ignora o extermínio por alemães e romenos de judeus e a expulsão dos tártaros por Stalin durante a II Guerra Mundial, exaltando a Crimeia como região desbravada pelo império russo.

 

Predomina a imagem da Crimeia como baluarte militar (sede da frota do mar Negro em Sevastopol) e idílio de veraneio da era soviética.

 

Os expedientes de Nikita Khrushchov ao transferir em 1954 a península para a Ucrânia para obter apoio do secretário-geral do PC da Ucrânia Oleksii Kirichenko contra o primeiro-ministro Georgui Malenkov na luta pela liderança aberta com a morte de Stalin são tidos por responsáveis pela aberrante situação da Crimeia após a dissolução da URSS.

 

A anexação e a intervenção militar e apoio a forças separatistas no Sul e Leste da Ucrânia surgem justificadas pela protecção de populações russas ameaçadas por fascistas ucranianos e como actos de reparação de direitos históricos.

 

Ao actual consenso russo opõe-se o nacionalismo ucraniano muito vincado nas regiões ocidentais e do centro do país, reivindicando a soberania sobre a totalidade do território da república independente proclamada em 1991. 

 

A alienação e as reticências em relação a Kiev das regiões onde predomina a população russófona - Kharkiv, Donestk, Lugansk, Zaporizhia - acentuam, no entanto, clivagens políticas na Ucrânia apesar da proximidade cultural, do bilinguismo e da importância da mescla linguística russo-ucraniana conhecida como "surjik".

 

Ao reconhecer passaportes emitidos pelas entidades separatistas de Lugansk e Donetsk, Putin lançou este mês nova provocação a Kiev a que o Presidente Petro Poroshenko respondeu com o bloqueio total de transacções comerciais com a região de Donbass onde recrudescem os confrontos militares.

 

O Kremlin iniciou, entretanto, a integração de unidades militares da Ossétia do Sul nas Forças Armadas da Rússia para criar "um espaço comum de defesa", insinuando a possibilidade de anexação formal desta entidade separada de facto da Geórgia desde 1992.

 

Depois da guerra de 2008 com a Geórgia, Moscovo deixou no limbo a anexação da Ossétia do Sul e também da Abkhazia que se separou violentamente de Tbilisi em 1993.

 

A anexação da Crimeia é o ponto alto da política de recuperação de esferas de influência por parte de Moscovo, mas a investida de Putin contra a Ucrânia aumentou as suspeitas de estados vizinhos quanto a veleidades expansionistas da Rússia e em nada contribuiu para a resolução do diferendo fronteiriço nas Ilhas Curilas com o Japão.

 

O pior efeito da anexação é, contudo, a constatação da inoperância das garantias de grandes potências ao firmarem acordos para obviar à proliferação nuclear militar.

 

Kiev desmantelou entre 1994 e 1996 o arsenal nuclear herdado da URSS e, pelo tratado de Budapeste de Dezembro de 1994, Rússia, Estados Unidos e Grã-Bretanha comprometeram-se a respeitar a independência, soberania e integridade territorial da Ucrânia.

 

Hoje, combate-se no Donbass e Moscovo celebra a Primavera da Crimeia.

 

Jornalista

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