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João Carlos Barradas - Jornalista 30 de Julho de 2008 às 14:00

A China suja

As autoridades chinesas não olharam a meios: fecharam fábricas, reduziram drasticamente a circulação automóvel, encerraram estaleiros de obras, mas, mesmo assim, a poluição atmosférica arrisca atingir níveis demasiado elevados durante os Jogos Olímpicos.

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A qualidade do ar em Pequim é bastante má e, apesar dos esforços das autoridades chinesas terem conseguido reduzir os níveis de dióxido de enxofre e monóxido de carbono, a concentração de partículas encontra-se duas vezes acima dos padrões considerados aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde.

Os níveis elevados de concentração de ozono também poderão obrigar o Comité Olímpico Internacional a cancelar algumas provas.

Ao sabor dos ventos

Pequim é uma cidade muito quente e húmida no Verão e quando os ventos sopram de sul as partículas vindas das regiões onde é maior a concentração populacional e industrial degradam consideravelmente a qualidade do ar.

Se soprar vento forte das estepes da Mongólia, a poluição diminui consideravelmente, mas o regime de ventos é instável e são frequentes os dias de Agosto sem uma brisa, em que pairam sobre a cidade nuvens cinzentas, reduzindo a visibilidade a escassas dezenas de metros.

As medidas tomadas desde 2006 – encerramento das unidades industriais mais poluentes, utilização de gás natural em autocarros públicos, expansão das linhas de metro e, a partir de Julho, o regime de circulação limitada de carros particulares e veículos oficiais, por exemplo – permitiram aumentar o número de dias de "céu limpo", de 100 em 1998, para 246 no ano passado, ainda que as autoridades ignorem outros indicadores relativos a concentrações de partículas finas poluentes e a níveis de ozono.

As chuvas de Verão serão bem-vindas para aclarar os céus, mas as variações bruscas na qualidade do ar em Pequim escapam ao controlo das autoridades e estão ao sabor dos ventos.

Para além dos efeitos a curto prazo das medidas de urgência adoptadas para Agosto e dos Jogos Paralímpicos de Setembro, Pequim continuará a ser uma capital com péssima qualidade ambiental.

Os cerca de 17 mil milhões de dólares de investimentos directos em medidas anti-poluição para Pequim, sem contabilizar custos de suspensão de actividades industriais, comerciais e da circulação de veículos durante períodos consideráveis, ficam aquém do necessário e resta ainda saber por quanto tempo será possível manter em vigor medidas excepcionais de controlo ambiental.

A poluição insuportável

Em 2004 o Banco Mundial classificava Pequim como a décima terceira cidade mais poluída do planeta numa listagem que, aliás, colocava 16 urbes chinesas entre as 20 metrópoles mais poluídas do mundo.

Estudos oficiais indicavam, por sua vez, que 70 por cento da poluição na capital era provocada por emissões industriais e circulação automóvel nas províncias vizinhas de Pequim.

As previsões optimistas, argumentando que o problema da poluição não porá em causa o modelo de desenvolvimento económico e que, tal como o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan, também a China conseguirá ultrapassar os efeitos ambientais negativos de uma rápida industrialização, subestimam a amplitude da catástrofe ecológica.

A China já está a par dos Estados Unidos na emissão de gases com efeito de estufa, os seus níveis de eficiência energética são baixíssimos e, infelizmente, persiste o cenário que aqui traçámos há um ano.

As águas de 70 por cento dos rios do país estão poluídas, 300 milhões de pessoas não têm acesso a água potável e apenas 25 por cento das águas residuais domésticas são tratadas. As reservas de água serão insuficientes para prover às necessidades em 2030, quando a população total atingir 1,6 mil milhões de pessoas.

As chuvas ácidas atingem um terço do país. A desflorestação e erosão dos solos afectam 37 por cento do território. A superfície de terras aráveis é cada vez menor e aproxima-se perigosamente dos 120 milhões de hectares, absolutamente insuficientes para prover às necessidades agrícolas.

Os danos ambientais, segundo estudos diversos, podem corresponder a valores entre 7 e 20 por cento do PIB.

O objectivo estabelecido pelo governo de Pequim para 2006 previa uma redução de 4 por cento do consumo de energia por unidade do PIB, mas, apesar de ter sido conseguida pela primeira vez uma diminuição de gastos energéticos, esta não chegou a ultrapassar os 1,2 por cento.

O objectivo de uma redução de 20 por cento estabelecido no plano quinquenal 2006-2010 é assim cada vez mais difícil de alcançar e a prevista diminuição de 2 por cento nas emissões poluentes em 2006 revelou-se outro desiderato falhado.

A catástrofe ecológica da China, a par do envelhecimento drástico da população, tornou insustentável o modelo de desenvolvimento seguido desde os anos 80.

Por muito bem que corram os Jogos Olímpicos, mesmo que os ventos do norte ajudem a limpar os céus da capital, as imagens que vão chegar de Pequim nas próximas semanas servirão para lembrar a muita gente os imensos dramas com que se confronta a China.

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