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João Carlos Barradas - Jornalista 28 de Junho de 2006 às 13:59

A guerra do ópio

A produção de ópio vai aumentar este ano no Afeganistão, segundo as estimativas divulgadas pela ONU esta semana, e o fracasso da ofensiva das tropas dos Estados Unidos e da NATO para controlarem as províncias do sul do país augura o pior para o regime de

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Os camponeses afegãos recolheram no ano passado 4 100 toneladas métricas de ópio, ou seja 89 por cento da produção mundial. As diminuições pontuais nas áreas de cultivo da papoila-dormideira e as variações climáticas que afectam as colheitas não destronam o Afeganistão do seu posto de líder incontestado da produção de ópio, o principal recurso de subsistência para a maioria da população rural que representa 80 por cento dos 31 milhões de habitantes do país.

Em 2005 a área cultivada sofreu uma redução - pela primeira vez desde 2001 - estimada em 21 por cento, mas a produção de ópio diminuiu apenas 2,4 por cento devido às condições climáticas favoráveis. A redução nas áreas de cultivo foi, no entanto, sol de pouca dura e este ano aguarda-se um aumento significativo na produção e tráfico de opiáceos.

A política de erradicação do ópio e de substituição de culturas (promovendo o açafrão, por exemplo, como está a ser tentado na província ocidental de Herat) não tem condições para vingar em condições de pobreza e insegurança generalizadas, conforme reconhece o Relatório Mundial Sobre a Droga da ONU que assinala, igualmente, um aumento significativo da refinação de heroína e morfina no Afeganistão.

A colheita do ópio começou no mês passado nas províncias do sul e terminará em Setembro nas regiões do norte do Afeganistão. Na província de Helmand, que contribui com um terço da produção mundial de ópio, a colheita deste ano poderá vir a ser a maior de sempre, tendo sido cultivados mais de 40 mil hectares, de acordo com estimativas do Senlis Council, o principal instituto europeu de investigação sobre narcotráfico no Afeganistão.

 Os Taliban, que lançaram esta Primavera a maior ofensiva desde a queda do regime do mullah Omar, em 2001, promovem agora o cultivo de ópio como meio de financiamento e patrocínio das populações rurais de etnia pashtun. De opositores aos clãs, tribos e bandos que tradicionalmente dependem do negócio do ópio, os Taliban surgem como o principal apoio do narcotráfico que gera cerca de 2,8 mil milhões de dólares por ano, ou seja mais 300 milhões de dólares do que o auxílio internacional concedido em média anualmente ao Afeganistão desde 2001.

O vespeiro do ópio

Esta nova realidade é reconhecida pelo general britânico David Richards, comandante da Força de Assistência de Segurança Internacional, em Cabul, ao admitir que 35 por cento dos ataques desencadeados nas províncias do sul desde Maio, quando as tropas do Reino Unido, do Canadá e da Holanda, iniciaram patrulhas na região, foram da responsabilidade de «narco-combatentes».

O responsável da NATO assume, aliás, como natural a reacção dos camponeses afegãos e dos traficantes locais que não dispõem de meios de subsistência alternativos ao ópio que sustenta 60 por cento de todas as actividades económicas no Afeganistão. O general Richards considera assim as províncias do sul do país como um «vespeiro» para as tropas estrangeiras, apesar do contingente internacional nem sequer ter como missão a erradicação das culturas de ópio.

 A operação «Assalto à Montanha» desencadeada este mês por 11 mil militares norte-americanos, britânicos e canadianos, com apoio de tropas afegãs, para estabelecer «zonas seguras» nas províncias de Helmand, Uruzgan, Kandahar e Zabul, no sul do país, não está a produzir os resultados esperados e os ataques da guerrilha Taliban e de outros grupos islamitas alastraram às regiões do norte e às áreas fronteiriças do Irão.

Os Estados Unidos e a NATO, que no próximo ano deverão unificar os respectivos comandos no Afeganistão, reconhecem que 80 por cento do país escapa presentemente ao controlo do governo de Cabul, apesar da presença dos contingentes de 23 mil soldados norte-americanos e de 8 mil militares de mais de 30 países em apoio aos 34 mil homens do exército afegão e 64 mil polícias com que alegadamente conta o governo do presidente Karzai.

O número de baixas desde o início do ano é o mais elevado desde a invasão de 2001, ultrapassando o milhar de mortos entre civis e combatentes afegãos e meia centena entre as forças internacionais.

O presidente Karzai, confrontado com o choque provocado pelos motins em Cabul, no final de Maio, contra o governo e as forças internacionais, impôs a censura à comunicação social, limitada aos principais centros urbanos, e enveredou pelo rearmamento das milícias tribais. Os esforços de desarmamento de 120 mil homens das milícias tribais chegaram assim ao fim e senhores da guerra como o antigo governador de Helmand Sher Akhunzada, demitido o ano passado por tráfico de droga, estão de volta como responsáveis pela segurança local.

O tadjique Mohammed Fahin, antigo ministro da Defesa, demitido há dois anos, passou a ocupar o cargo de conselheiro para assuntos militares do presidente e 13 oficiais da polícia, acusados de corrupção e violações dos direitos humanos, foram nomeados para postos de chefia.

Depois de ver recusado o direito de supervisão sobre as operações militares das forças norte-americanas, Karzai exigiu maior empenhamento militar estrangeiro e a concretização do auxílio financeiro de 10,5 mil milhões de dólares para os próximos cinco anos prometido, em Fevereiro, na conferência internacional de Londres. Os apelos do presidente chocam com as reticências dos principais doadores estrangeiros face ao peso crescente dos senhores da guerra e dos interesses tribais na fragmentada administração central e local.
 
Um Estado de fachada

O avolumar de críticas por parte de Karzai pelo alegado apoio do Paquistão ao terrorismo é ignorado pelos Estados Unidos apostados em preservar o regime de Pervez Musharraf. Os militares de Islamabad não estão em condições de desarticular as redes de apoio aos guerrilheiros e terroristas que operam a partir das províncias paquistanesas do Baluchistão, do Waziristão e nas áreas fronteiriças. Acresce que boa parte das chefias militares paquistanesas na impossibilidade de impor um regime de seu agrado de maioria pashtun em Cabul vê com bons olhos a fragmentação do poder no país vizinho.

No último ano a guerrilha Taliban recuperou sólidos apoios no sul do Afeganistão, sob o comando de Jalaludin Haqqani. Os islamitas ligados à Al Qaeda, bem como os bandos afegãos de Gulbuddin Hekmatyar, operam, por sua vez, a par dos Taliban, a partir das regiões fronteiriças promovendo incursões cada vez mais mortíferas no norte e nordeste do Afeganistão, com recurso pronunciado a ataques suicidas a exemplo do que acontece no Iraque.

A insegurança generalizada propicia assim a consolidação do narcotráfico e faz da cultura do ópio a única actividade de subsistência viável para a maioria da população. A estratégia possível para alterar a situação obrigaria a um reforço considerável das tropas estrangeiras para garantir a segurança nas províncias, desarmando as milícias locais, de forma a gerir programas de desenvolvimento rural.

Na presente situação o reforço dos contingentes militares é inviável e os financiamentos e doações internacionais não estão prioritariamente orientados para a erradicação do ópio e a sua substituição por culturas comercialmente viáveis.

Perdida a guerra do ópio o Afeganistão não passará dum estado com um governo de fachada em Cabul sob protecção estrangeira e os poderes de facto na mão de milícias e traficantes de droga.

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