João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 13 de setembro de 2016 às 20:10

A mulher fatal e o destino

Toda a vida a política obrigou Hillary a mentir e omitir a tal ponto que, como aconteceu a tantos outros, a manipulação e o engano colaram-se-lhe à pele, arrebataram-lhe a alma, e ameaçam, agora, um desfecho trágico.

A vantagem que leva nas sondagens, sobretudo em estados-chave - caso da Pensilvânia ou Flórida -, ainda augura uma maioria no Colégio Eleitoral, mas é cada vez mais reduzida e os percalços da campanha aumentam o risco de malogro.

 

Ao descurar a guarda, Clinton classificou metade dos apoiantes de Trump como gente deplorável por manifesto "racismo, sexismo, homofobia, xenofobia, islamofobia".

 

Depois, uma pneumonia retirou-a de cena, trazendo à ribalta o historial de problemas de saúde e, uma vez mais, a manipulação de informação típica dos Clinton obscureceu todo o resto.

 

Donald Trump aproveitou, atacando o elitismo e a sobranceria da rival, e as teorias conspirativas sobre Hillary ganharam novo fôlego.

 

O programa democrata, preparando o terreno para o primeiro de três debates presidenciais a 26 de Setembro, viu-se remetido a manobras defensivas quanto a temas indesejados: a saúde, a probidade e a sinceridade da candidata.

 

Obama nas primárias contra Hillary em 2008 também lamentara que, nas pequenas cidades da Pensilvânia, pessoas amarguradas pela perda de empregos sublimassem  frustrações através do culto das armas, da religião e da xenofobia.

 

Clinton retorquiu, então, deplorando as tiradas elitistas e ofensivas contra eleitores brancos de menores rendimentos e diminuta escolaridade.

 

Obama perdeu a Pensilvânia para a rival ainda que acabasse por aí vencer no confronto com John McCain.

 

Na Pensilvânia, Michigan e Ohio, a polémica repete-se nestas presidenciais e Trump tenta conquistar "brancos amargurados" dos estados do "Rust Belt" e "Mid West" com a promessa de renovar a grandeza da América. 

 

A nível nacional sobressai um dado crucial: a apreciação dos candidatos degrada-se à medida que se aproxima o 8 de Novembro e nenhuma sondagem regista confiança na honestidade de Clinton ou Trump acima dos 60%.

 

Os democratas, sem expectativa de recuperar a Câmara de Representantes e o Senado, estão a falhar na disputa presidencial ao não conseguir impor os termos do debate.

 

A demagogia e desaforo de Trump marcam a agenda e são consistentes na promoção de temas fortes - protecção de emprego, segurança contra o crime, denúncia de ameaças externas - sem que opositores democratas e republicanos moderados consigam contrariar a vaga de  protesto.

 

O recobro de Hillary é incerto e o cadastro da candidata pesa cada vez mais.

 

No primeiro acto público de relevo na campanha que levaria o governador do Arkansas à Casa Branca em 1992, Hillary surgiu ao lado do marido numa entrevista ao programa "60 Minutes" da CBS.

 

Bill negou nessa ocasião qualquer relação extraconjugal com a modelo Gennifer Flowers.

 

Hillary anuiu e apoiou o marido que mentia, e por muitos e longos anos ante "conspirações de direita" e demais desditas ela e ele foram mentindo em prol de seus interesses e do interesse público.   

 

A ambição, selada no casamento com Bill Clinton em 1975, deu frutos, mas, Hillary, tão perto da Casa Branca, pode ser arrastada por um historial de omissões e mentiras numa eleição em que tinha quase tudo para ganhar. 

 

Síncopes, tropeços, são próprios de campanhas e confundem-se com o fatalismo de dramas das campanhas.

 

No dizer de Napoleão, conversando com Goethe, em Erfurt, quando negociava, em 1808, com o imperador russo Alexandre I a partilha da Europa, nos dramas predomina o encadeamento e relevância da fatalidade que pouco contribui para a elevação do povo e dos dirigentes, ao contrário da grandiosidade das tragédias.

 

De resto, a política é a fatalidade, asseverava Napoleão.

 

Nesta ronda eleitoral bem pode a política revelar-se outra forma de desgraça.   

 

Jornalista

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