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João Carlos Barradas 18 de Fevereiro de 2009 às 13:51

Afeganistão: à espera da Primavera

Enlear-se numa guerra no Afeganistão sem objectivos claros no meio de uma crise económica e financeira é a última coisa de que precisam os Estados Unidos e os seus aliados europeus, canadianos e australianos.

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Enlear-se numa guerra no Afeganistão sem objectivos claros no meio de uma crise económica e financeira é a última coisa de que precisam os Estados Unidos e os seus aliados europeus, canadianos e australianos.

A ineficácia e corrupção da administração do presidente Hamid Karzai, a insuficiência de efectivos militares e de meios financeiros para a reconstrução de um país devastado por 30 anos de guerra conduziram a um impasse.

Os aliados, com apenas cerca de 70 mil homens no terreno, não têm condições para assegurar o controlo das províncias de maioria pashtun do sul e leste do Afeganistão e ao optarem pelo recurso sistemático a ataques aéreos reforçaram a hostilidade das populações nas áreas mais sujeitas à presença dos talibans.

Uma guerra cada vez mais sangrenta
A ONU estima que no ano passado, o mais sangrento desde a invasão de 2001, o número de vítimas civis tenha aumentado 39% em relação a 2007, cifrando-se em 2.119 mortes.

Os talibans teriam causado 55% das baixas civis, mas os ataques aéreos da NATO e dos Estados Unidos seriam responsáveis por 455 mortes, apesar dos aliados reconhecerem apenas 237 vítimas.

O agravamento da situação deu origem a críticas públicas de responsáveis norte-americanos e da NATO a Karzai, enquanto o presidente afegão exige que parem os ataques aéreos e as forças aliadas cooperem plenamente com os cerca de 80 mil homens do exército nacional não se envolvendo, designadamente, em buscas e interrogatórios não autorizados de civis.

Numa altura em que se agrava a crise constitucional provocada pelo adiamento das eleições presidenciais para Agosto, quando o mandato de Karzai termina em Maio, o claro distanciamento entre os aliados e o presidente abriu caminho para a escolha de um sucessor que terá de ser aceitável para as tribos pashtun (cerca de 40% da população) e para as minorias tadjiques (aproximadamente 27% dos habitantes do Afeganistão), além de hazaras, uzbeques e turcomenos.

Na expectativa de um recrudescimento dos combates no início da Primavera, as negociações políticas entre as facções afegãs e a recandidatura de Karzai estão dependentes da estratégia que os aliados venham a definir na cimeira da NATO de Abril.

Irredutíveis pashtun
Os talibans, nomeadamente a frente liderada pelo Mullah Omar e as forças comandadas por Jalauddin Haqqani, recusam quaisquer conversações, e só alguns comandantes islamitas isolados, designadamente na província de Helmand, aceitaram até agora tréguas a troco de assumirem o controlo das suas áreas de influência.

Acordos pontuais fomentados, ora pelas forças aliadas, ora pelo governo de Cabul, têm permitido a milícias tribais e às forças dos chamados "senhores da guerra" controlarem vastas áreas territoriais.

A produção de ópio diminuiu 19% no ano passado em relação a 2007, mas continua a ser suficiente para financiar o esforço de guerra dos talibans e alimentar a corrupção dos poderes públicos.

Restrito presentemente a 12 das 34 províncias do país, o cultivo de ópio é também motivo de divergências entre os aliados (norte-americanos e britânicos consideram a erradicação um objectivo imediato ao contrário da maior parte dos demais contingentes da NATO) e as autoridades afegãs.

Pelo menos 15% dos 32 milhões de afegãos dependem do cultivo de ópio e as políticas de substituição de culturas têm produzido resultados limitados, enquanto persistem desacordos sobre a viabilidade de programas de compra directa das colheitas aos produtores, legalizando a principal fonte de rendimento dos camponeses, sobretudo em Helmand e noutras províncias do sul.
A irredutível resistência dos talibans pashtun no sul e no leste do Afeganistão é inseparável da rebelião islamita e tribal no Paquistão e o consenso entre os aliados é de que só acordos políticos, mitigando os apoios além fronteiriços, poderão evitar um agravamento da situação militar.

O futuro da guerra
Paquistaneses e indianos favorecem facções rivais no Afeganistão, mas, tal como a China e o Irão, têm interesse na viabilização de gasodutos, oleodutos e rotas comerciais que implicam a pacificação do território afegão.

Negociações envolvendo paquistaneses, indianos, chineses e iranianos, além das repúblicas da Ásia Central onde a Rússia tem ascendente, são um pressuposto para a estabilização do Afeganistão, mas dependem da contenção dos talibans que no ano passado infligiram mais de 290 baixas aos aliados.

A administração Obama considera duplicar o contingente norte-americano com mais 30 mil homens (o máximo reforço possível dadas as limitações orçamentais e humanas das forças armadas de Washington e ainda assim dependente da redução da presença no Iraque), mas conta com escasso apoio dos aliados.

Mesmo um reforço dos 1.100 homens do contingente australiano não compensará a retirada de tropas canadianas e holandesas, ao mesmo tempo que a maior parte dos membros da NATO dificilmente mobilizarão mais de 10 mil militares para o cenário de guerra no Afeganistão.
Um total de 100 mil homens é ainda insuficiente. Treinar e financiar o exército afegão para que chegue aos previstos 130 mil efectivos, encetar acções ofensivas no sul e leste do país e manter simultaneamente condições de segurança para projectos de desenvolvimento (para os quais não existem verbas, nem meios humanos) são objectivos que ultrapassam os meios previsivelmente disponíveis.

O objectivo essencial de um reforço militar parece assim limitar-se a conter o alastramento e intensificação das ofensivas talibans de forma a criar condições diplomáticas para envolver os países vizinhos em negociações.

A deriva islamita dos pashtun no Paquistão não augura, no entanto, hipóteses de sucesso a curto prazo para a estabilização do Afeganistão mesmo numa variante minimalista em que o governo de Cabul seja reconhecido como autoridade simbólica nos principais centros urbanos e entre as minorias étnicas.

Um reforço militar implica no imediato uma intensificação dos combates e um aumento das vítimas civis, sem contrapartida na melhoria na oferta de equipamentos e serviços às populações, e poderá contribuir para uma alienação ainda maior dos pashtun.
O que acontecer esta Primavera determinará o futuro da guerra no Afeganistão.
Se os Estados Unidos e a NATO não conseguirem conter a guerrilha taliban, a vontade política para prosseguir o esforço de guerra e investir na reconstrução do Afeganistão claudicará irremediavelmente.



Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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