João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 05 de fevereiro de 2014 às 00:01

As fúrias do Cáucaso

Uma longa história de subjugação política e religiosa ao poder russo e acentuada desqualificação económica alimentam uma saga jihadista que não dá mostras de ceder terreno.

 

Murada e patrulhada como uma fortaleza assediada por incontáveis perigos Sotchi é, agora, o símbolo dos intratáveis problemas com que a Rússia se confronta no Norte do Cáucaso.

A empreitada das Olimpíadas de Inverno em região subtropical bateu recordes de gastos inflacionados pela corrupção, cerca de 36 mil milhões de euros, e saldou-se por actos de autoritarismo típicos da Rússia de Putin que em nada fica a dever aos regimes antecessores.

Ao propor-se realizar os Jogos na estância turística do Mar Negro no início da década, ainda Shamil Basaev (morto em 2006) liderara os separatistas islamistas tchetchenos, Putin visou demonstrar o domínio russo sobre o Cáucaso, mas a aposta falhou redondamente.

Guerras da Tchetchénia

As rebeliões e terrorismo anti-russos que têm marcado o período pós-soviético no Norte do Cáucaso alastraram da Tchetchénia para toda a região a partir do momento em que Boris Ieltsin fracassou na primeira tentativa do Kremlin para subjugar os separatistas liderados por Dzhokar Dudaiev que em 1993 proclamariam a independência da República da Ichkéria.

A guerra russo-tchetchena entre Dezembro de 1994 e Agosto de 1996 atingiu níveis de brutalidade que ultrapassaram alguns dos piores massacres das campanhas de conquista russas do século XIX numa região multiétnica onde predominavam laços clânicos e tribais e islamizada a partir do século VIII.

Abaladas por um conflito brutal e banditismo generalizado as sociedades do Norte do Cáucaso, que durante o período soviético tinham conseguido preservar apesar das deportações stalinistas de tchetchenos e inguches as irmandades sufis (Naqshbandi e Qadiri) núcleo forte da variante regional do Islão, foram palco de novos surtos jihadistas.

A invasão do vizinho Daguestão pelos jihadistas de Shamil Basaev e Ibn al Khatab (militante saudita morto em 2002) em Agosto de 1999 e atentados bombistas no mês seguinte em diversas cidades russas levaram Putin a lançar nova ofensiva militar que culminaria na conquista de Grozni em Fevereiro de 2000.

A instauração de um regime colaboracionista, primeiro chefiado por Akhmad Kadirov (assassinado em 2004) e presentemente pelo seu filho Ramzan, não extirpou o jihadismo tchetcheno, apesar de garantir mínimos de segurança a partir de 2008, tendo, entretanto, a insurreição islamista passado a centrar-se no Daguestão e na Inguchétia.

Sucessivas vagas terroristas com pontos altos nos sequestros do teatro Dubrovka em Moscovo, em Outubro de 2002, (170 vítimas mortais), da escola de Beslan, Ossétia do Norte, em Setembro de 2004 (380 mortos), foram coordenadas por islamistas do Norte do Cáucaso.

O emirado terrorista

Sob a liderança do tchetcheno Doku Umarov, autoproclamado "Emir do Cáucaso" em Outubro de 2007, uma nova onda de ataques começou com operações suicidas em 2008, mobilizando inclusivamente convertidos russos, e a ameaça paira sobre a Rússia.

Os atentados de Dezembro em Volvogrado, que actualmente as autoridades russas atribuem a militantes da cidade de Buinaksk no Daguestão, são os últimos ataques de larga escala em data, mas é de temer que as forças de segurança russas não consigam evitar novos actos de terror.

As autoridades russas eliminaram muitos dirigentes e militantes islamitas do "Emirado do Cáucaso" – caso do inguche Ali Taziev capturado em 2010 ou do tchetcheno Supyan Abdullayev abatido em 2001 –, mas da Kabardino-Balkaria ao Daguestão sucedem-se incidentes terroristas.

O jihadismo terrorista no Norte do Cáucaso tem fortes raízes regionais e a presença nos anos 90 de militantes ligados à Al Qaeda, na maioria árabes, revelou-se um factor secundário e irrelevante.

Uma longa história de subjugação política e religiosa ao poder russo e acentuada desqualificação económica alimentam uma saga jihadista que não dá mostras de ceder terreno.

Memória de uma expulsão

Toda a renovada arrogância imperial russa que se manifesta em Sotchi aos olhos de gentes do Norte do Cáucaso, além de georgianos, arménios e azeris, reaviva, também, reivindicações pacíficas há muito olvidas.

Activistas circassianos relançaram as suas exigências de reconhecimento por Moscovo do "genocídio" de 1864 quando cerca de 400 mil pessoas foram mortas pelos conquistadores russos e 400 mil expulsas do Noroeste do Cáucaso para o Império Otomano.

O "genocídio" dos circassianos – reconhecido pela Geórgia em 2011 que, no entanto, ignora as reivindicações de Erevan para reconhecimento do genocídio arménio em 1915 no Império Otomano – surge como mais uma polémica mobilizando boa parte dos cerca de 700 mil circassianos residentes na Federação Russa, designadamente nas repúblicas da Adigeia, Kabarnino-Balkaria, Karachai-Cherkessia e no Sul da região (krai) russa de Krasnodar.

A polémica tem condições para mobilizar a diáspora circassina, cerca de quatro milhões de pessoas, espalhada sobretudo pela Turquia, Jordânia, Síria e Israel, aproveitando alguma atenção mediática até ao final deste mês e é mais um espinho para Putin.

Jornalista

barradas.joaocarlos@gmail.com

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