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João Carlos Barradas - Jornalista 02 de Setembro de 2009 às 11:35

Deixar correr o marfim na tenda de Kadhafi

Com seus camelos, tendas e milhões de dólares, Muammar Kadhafi celebra esta semana 40 anos no poder sem que se vislumbre como a Líbia possa escapar às extravagâncias do líder da Grande Revolução do 1º de Setembro. Aos 67 anos, o líder líbio concentra todos os...

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Com seus camelos, tendas e milhões de dólares, Muammar Kadhafi celebra esta semana 40 anos no poder sem que se vislumbre como a Líbia possa escapar às extravagâncias do líder da Grande Revolução do 1º de Setembro.

Aos 67 anos, o líder líbio concentra todos os poderes, cultiva a ambiguidade quanto à possível sucessão por parte de dois dos seus sete filhos, Saif al Islam e Moatessem Billah, continua a predicar a unidade africana, mas já não exige a independência da Madeira, e as suas tiradas contra Israel deixam árabes indiferentes sem atormentarem investidores estrangeiros.

A polémica em torno da libertação de Abdelbasset al Megrahi, condenado a prisão perpétua na Escócia pelo atentado de Lockerbie em 1988, ameaça prejudicar mais os governos de Londres e Edimburgo do que Tripoli à medida que se sucedem as revelações sobre um entendimento entre britânicos e líbios quanto aos contratos da British Petroleum que só em 2007 retomou os investimentos na Líbia.

Duplicidade proveitosa
Uma eventual indemnização por parte de Tripoli a familiares de vítimas do IRA, financiado e armado por Kadhafi nos anos 70 e 80, poderá ajudar a ultrapassar a controvérsia e para todos os efeitos a morte esperada de al Megrahi, que como bom operacional negará até ao fim a sua responsabilidade pelo atentado, permitirá manter a ambiguidade oficial líbia quanto ao ataque ao voo da Pan Am.

Tripoli assumiu em Dezembro de 2003 em carta às Nações Unidas a responsabilidade pelo atentado de Lockerbie e, ainda, pela explosão de um voo da companhia francesa UTA, em Setembro de 1989 que provocou 170 mortos, mas Kadhafi sempre proclamou em público a inocência de al Megrahi e da Líbia.

A persistente duplicidade de Kadhafi acabou por ser tacitamente aceite por norte-americanos e britânicos dado que o líder líbio negociava simultaneamente o abandono do seu programa nuclear clandestino e comprometia-se a abandonar o apoio a grupos terroristas.

O trunfo Al Qaeda
O êxito da reciclagem de Kadhafi de terrorista alucinado em estadista excêntrico levou ao levantamento das sanções internacionais e foi facilitada pela coincidência de interesses entre Washington e Tripoli no combate à Al Qaeda. Kadhafi foi um dos primeiros líderes árabes a constatar o perigo que o radicalismo islamita representava quando no início dos anos 90 jihadistas líbios retornados do Afeganistão iniciaram uma campanha terrorista contra o regime.

Em Março de 1998 a Líbia fora o primeiro estado a solicitar à Interpol, ante a indiferença dos países ocidentais, a captura de Bin Laden.

Os atentados da Al Qaeda contra as embaixadas norte-americanos em Dar-es-Salaam e Nairobi, cinco meses depois, acabaram, no entanto, por criar condições para uma aproximação a Washington que teve o seu ponto alto na condenação por Kadhafi dos ataques de 11 de Setembro de 2001.

A Líbia cooperou desde então com os Estados Unidos na perseguição à Al Qaeda e num tributo do vício à virtude uma clássica persona non grata, Mussa Kussa, acabou nomeado em Março Ministro dos Negócios Estrangeiros depois de 15 anos à frente dos serviços secretos de Tripoli.

A maior parte dos líderes do Grupo de Combate Islâmico Líbio presos na cadeia de Abu Salim, em Tripoli, negoceiam entretanto uma contrição pública e os militantes exilados no Afeganistão e Paquistão revelam-se impotentes para conduzir ataques contra o regime líbio.

Erradicada a ameaça islamita e sem sinais de oposição entre os militares Kadhafi aproveita os benefícios do retorno dos investidores ocidentais para lançar novas campanhas confusas de reforma económica que de pouco têm valido a 6 milhões de líbios.

Um extravagante útil

O PIB per capita da Líbia é o mais elevado do Maghreb (cerca de 9 mil dólares), mas os subsídios na saúde, educação ou habitação não erradicaram importantes bolsas de pobreza relativa e cerca de 20 por cento da população encontra-se desempregada.

As empresas estrangeiras envolvidas em projectos de construção de infra-estruturas e exploração de hidrocarbonetos estão sujeitas a renegociações bruscas de contratos e as erráticas privatizações sectoriais, alterações de controlos de preços, crédito ou licenças de exportação e movimentação de divisas, mantêm o estado como pivot da economia.

Para todos os efeitos, a Líbia aos olhos dos seus principais parceiros comerciais, a começar pela Itália e a Alemanha, é um mercado que vale pelos hidrocarbonetos e os 147 mil milhões de dólares de reservas em divisas que as exportações da gás e petróleo permitiram acumular.

Os desertos da Líbia contam por lá se encontrarem 3,3 % das reservas mundiais provadas de petróleo e 1 % das reservas provadas de gás natural.

Kadhafi soube arrepiar caminho em devido tempo num confronto com os Estados Unidos e ganhou espaço para cultivar caprichos e desvarios desde que não reincida em aventuras terroristas ou armamentistas susceptíveis de desestabilizar o Maghreb, o Sudão ou o Chade, e, sobretudo, enquanto não falhar com o petróleo e o gás.


Jornalista
barradas.joaocarlos@gmail.com
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