João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 13 de setembro de 2007 às 13:59

Iraque: a guerra acabou

Toda a guerra tem um objectivo e a investida norte-americana no Iraque perdeu o norte. A guerra continuará nas terras da Mesopotâmia, mas os objectivos estratégicos de Washington esvaíram-se sem que tenha sido definida até agora uma alternativa por parte

A “Estratégia Nacional para a Vitória no Iraque”, aventada em Novembro de 2005 pela Casa Branca, definia como objectivos a curto prazo a consolidação de instituições democráticas em Bagdad, sustentadas por forças de segurança próprias capazes de deter ameaças terroristas.

O plano estratégico implicava a médio e longo prazo a instituição de um estado unitário capaz de integrar uma “parceria global de combate ao terrorismo”, com autonomia económica assente na exploração dos recursos petrolíferos.

Quatro anos depois da intervenção militar os Estados Unidos confrontam-se com um fracasso estratégico e, independentemente de considerações tácticas acerca da condução de operações militares, chegou a hora de redefinir as alternativas de Washington no Golfo Pérsico e no Médio Oriente.
    
A retirada pela Primavera

Quando chegarmos à Primavera, será altura de iniciar a retirada de algumas brigadas a menos que a Casa Branca opte pela mobilização de efectivos da Guarda Nacional ou de reservas. Tal opção é inviável de um ponto de vista político e, consequentemente, na falta de efectivos mobilizáveis assistir-se-á a uma redução no actual contingente militar de 160 mil homens.

A contenção de acções de guerrilha ligadas à Al Qaeda, através de acordos pontuais com tribos sunitas em Anbar, é notoriamente insuficiente para uma pacificação que implique um acordo político entre diversos grupos políticos nas províncias de maioria sunita. Acresce que as tréguas concertadas com as tribos sunitas em Anbar foram realizadas à revelia do governo central.

Os confrontos em Bassorá entre milícias xiitas pelo controlo das principais jazidas de petróleo do Iraque, bem como a tensão entre curdos, árabes e turcomenos sobre o estatuto de Kirkuk no norte do país escapam, igualmente, à mediação do governo central e à intervenção das forças norte-americanas.

O exército e as forças policiais iraquianas continuam a revelar-se divididas nas suas lealdades sectárias e impotentes para garantir condições de segurança, ao passo que as milícias xiitas e curdas mantêm as suas estruturas autónomas pondo em causa a autoridade do governo de Bagdad.

A partilha dos recursos petrolíferos e a autonomia provincial e regional não fazem consenso entre os partidos políticos e minam a eficácia do executivo de coligação, enquanto o acantonamento por filiação étnica se estendeu a todo o país.
 
Na capital, o êxodo da população sunita converteu a cidade numa metrópole de incontestável maioria xiita. Os bairros do noroeste de Bagdad foram, por exemplo, abandonados pelos habitantes sunitas e os xiitas constituem presentemente 75 por cento da população da maior cidade iraquiana.

A maioria dos fundos disponibilizados até Junho pelos Estados Unidos (44,5 mil milhões de dólares) e por doadores internacionais (18,2 mil milhões de dólares), além dos 36,8 mil milhões de dólares investidos pelo governo iraquiano, não tiveram aplicações que se traduzissem na recuperação de infra-estruturas e a produção de petróleo mantém-se abaixo dos níveis de 2003.

À excepção do Curdistão, os fornecimentos de electricidade são insuficientes, estima-se que apenas 30 por cento da população tenha acesso a água potável e, segundo dados da Oxfam, 28 por cento das crianças iraquianas revela sinais de desnutrição.

Os mais de dois milhões de refugiados em países vizinhos e os dois milhões de deslocados no Iraque continuam sem perspectivas de retorno e realojamento.  

Os níveis de violência mantêm-se muito elevados, tendo-se registado 1.980 mortes em Julho e 2.890 vítimas em confrontos e atentados em Agosto.
                                       
Outra guerra

Por qualquer padrão de avaliação, os níveis de conflitualidade mostram um país atormentado por violências que opõem as principais comunidades étnicas e religiosas, sem que o governo central, paralisado por conflitos políticos, faça valer a sua putativa autoridade.

Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos não foram, portanto, atingidos e a instabilidade interna do Iraque tornou o país mais permeável aos interesses conflituosos dos estados vizinhos, designadamente o Irão, a Turquia e a Síria.

Aos Estados Unidos resta apenas reduzir as perdas, tentar evitar que uma retirada faseada alente nos próximos dois anos uma guerra civil que provoque o desmembramento do estado iraquiano e concentrarem-se na protecção dos demais estados petrolíferos árabes do Golfo.

A contenção do Irão passou a ser o principal desiderato estratégico dos Estados Unidos.
Esta guerra acabou.

Agora é outra guerra.

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