João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 21 de março de 2007 às 13:59

Iraque: uma questão de tempo

Uma vaga de atentados em Kirkuk no quarto aniversário do começo da guerra no Iraque chegou para relembrar que o conflito no norte do país irá agravar-se nos próximos meses e ameaçar o plano norte-americano de contenção da violência em Bagdad e na provínci

As dissensões quanto ao recenseamento eleitoral com vista à realização de um referendo em Novembro sobre a eventual integração da cidade na região autónoma do Curdistão exasperam as tensões entre curdos, árabes e turcomenos.

O aumento da violência desde o início do ano nesta cidade de um milhão de habitantes augura para os próximos meses um número de vítimas bem superior aos 325 mortos contabilizados em ataques durante 2006 em Kirkuk.

A escala da tensão ocorre na altura em que o governo central, após um acordo de princípio sobre a repartição dos recursos petrolíferos, negocia os termos efectivos da divisão das receitas, a reorganização da empresa estatal e o enquadramento de contratos de exploração de companhias estrangeiras.

O controlo partilhado da indústria do petróleo, que assegura mais de 90 por cento das receitas do orçamento, é condição essencial para a preservação de um estado federado e obstar à irrelevância da minoria sunita desprovida de recursos em hidrocarbonetos nas regiões central e ocidental do país.

Para o governo regional curdo o objectivo principal nesta morosa negociação que deverá arrastar-se até chegar ao parlamento no Verão visa garantir a negociação directa com empresas estrangeiras dos contratos de exploração de novos poços, além de criar capacidade de refinação no Curdistão. Independentemente das receitas serem repartidas a nível federal, para os curdos é vital garantir autonomia de gestão e capacidade de negociação internacional para a eventualidade de uma secessão do Curdistão.

Os riscos da investida curda

Depois de terem conseguido formar a primeira região autónoma do Iraque, integrando as províncias de Erbil, Suleimania e Dohuk, os líderes dos dois principais partidos curdos (União Patriótica e Partido Democrático) preparam-se para uma votação que irá consagrar muito provavelmente o seu controlo sobre a terceira cidade do país e respectivas jazidas petrolíferas, com reservas provadas de 12 mil milhões de barris.

A resistência em Kirkuk da minoria árabe, essencialmente sunita, de turcomenos e assírios à integração da cidade na esfera política curda ameaça abrir uma terceira frente na guerra civil iraquiana. O risco de um confronto entre curdos e sunitas paralisar por completo o governo central pode levar, ainda, os xiitas a optarem pela via da criação de uma região autónoma, condenando à irrelevância o estado federal e Bagdade à partilha étnica.

Para Washington seria catastrófico envolver-se num conflito com os partidos curdos que por garantia de segurança contra ameaças turcas e iranianas estão inclusivamente dispostos a aceitar bases norte-americanos na sua região após uma retirada das forças dos Estados Unidos do Iraque.

O compromisso de Petraeus

O recém-nomeado comandante das forças norte-americanas, general David Petraeus, assumiu o compromisso de até Junho aferir publicamente do eventual sucesso da nova estratégia de contenção da violência na capital.

No início do Verão estará completo o reforço de 21 500 tropas de combate, além de 7 200 polícias militares e pessoal de assistência, que permitirá ao general Petraeus contar com cerca de 160 mil homens para reduzir a violência em Bagdade e na vizinha província sunita de Anbar.

Os efectivos são insuficientes para uma operação de contra-insurreição eficaz pelos próprios padrões definidos pelo general Petraeus no seu manual de contra-insurreição que implicam um mínimo de 20 soldados de combate por mil habitantes em área urbana (Ponto 67 do I Capítulo). Tal ratio obrigaria à presença de 120 mil homens para controlo de Bagdade e Petraeus dificilmente conseguirá atingir 20 por cento dos efectivos teoricamente necessários.

O comandante norte-americano conta, no entanto, com um aumento da eficácia dos cerca de 328 mil polícias e militares iraquianos para garantir níveis mínimos de segurança e continuará a apoiar-se nos cerca de 100 mil contratados de empresas privadas para acções acessórias.

O primeiro mês de patrulhas conjuntas na capital permitiu reduzir o número de ataques das milícias xiitas, designadamente do exército do Mahdi de Moqtad Al Sadr que evitou confrontos directos, mas saldou-se por um aumento de ataques terroristas de grupos de insurrectos sunitas e dos bandos inspirados pela Al Qaeda. Fora da capital, os níveis de violência poderão ter mesmo aumentado e surgiu, pela primeira vez, o recurso a atentados envolvendo bombas de cloro na província de Anbar.

A recolha de informação junto das populações, essencial para a prevenção de ataques, é reconhecidamente muito limitada, apesar de algumas tribos sunitas estarem em guerra aberta com os bandos da Al Qaeda, dada a crispação entre xiitas e sunitas, a desconfiança generalizada ante as tropas norte-americanas e as suspeitas face às lealdades comunitárias das forças governamentais.

Uma operação tardia e limitada

A operação de contenção na capital e em áreas delimitadas de Anbar deveria permitir, em princípio, promover a recuperação de infraestruturas e a criação de emprego, além de assegurar os fornecimentos básicos de electricidade e água, prover à recolha de lixo e outras funções essenciais para a população acreditar no retorno à normalidade de vida em meio urbano. É algo de essencial à estratégia de anti-insurreição de Petraeus para que seja possível conseguir outro objectivo da operação de controlo: dar tempo ao primeiro-ministro Nur Al Maliki para recuperar a iniciativa política.

O político xiita, manietado pelas desinteligências na coligação governamental e dependente do apoio de Moqtad Al Sadr, não tem, contudo, condições para impor uma purga das milícias infiltradas nas forças policiais e no exército. A legitimidade e lisura de procedimentos dos órgãos administrativos e de segurança que o general Petraeus estima vitais para ganhar a luta ideológica em acções de contra-insurreição falham por completo em Bagdade.

As tentativas de integrar antigos membros do partido Baath nas estruturas administrativas e de segurança não produziram resultados até agora e contam com a oposição declarada dos líderes das alas militares dos principais partidos xiitas, as milícias de Al Sadr e a Organização Badr, do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica.

O previsto investimento de reconstrução no montante de dez mil milhões de dólares em fundos governamentais, além de mais mil milhões em donativos norte-americanos, num quadro de corrupção generalizada e na ausência de um sistema judiciário funcional e independente, corre o risco de desvios significativos, de agravar disputas comunitárias e demorará a produzir efeitos.

O confronto entre sunitas e xiitas, que desde o atentado de Fevereiro de 2004 contra a mesquita xiita de Al Askari, em Samarra, assumiu características típicas de uma guerra civil de média intensidade, atingirá porventura o paroxismo quando os Estados Unidos iniciarem a retirada.

Nas províncias do sul, a decisão de Londres reduzir os seus efectivos a menos de 5.000 homens até ao final do ano na região de Bassorá irá redundar no irreversível controlo das áreas de maioria xiita pelas milícias em convivência com o exército governamental.

Os partidos e milícias religiosas xiitas enveredaram por uma crescente orientação fundamentalista e têm imposto a sua vontade no sul do Iraque sem encontrarem resistência da parte do governo central.
 
Uma questão de legitimidade

O calendário eleitoral das presidenciais norte-americanas e a maioria democrática no Congresso não vão, no entanto, conceder sequer o benefício da dúvida à estratégia de contenção.

No melhor dos cenários, mesmo que Kirkuk não inflame as tensões ou que a crise nuclear iraniana não arrasta consequências piores para o Iraque, será impossível que a estratégia de contenção do general Petraeus resulte em escassos meses de forma a garantir condições de segurança em Bagdade e Anbar para, depois, alargar as operações às províncias de Diyala e Salah Al Din.

As sondagens divulgadas por ocasião do aniversário do começo da guerra indicam claramente que a grande maioria dos xiitas e sunitas se opõe à presença militar norte-americana e pretende a retirada das forças estrangeiras no prazo máximo de um ano. Só os curdos, prestes a assistirem à retirada dos 2.300 militares sul-coreanos estacionados em Irbil, aceitam a manutenção de contingentes estrangeiros no resto do Iraque.

Nos Estados Unidos, o apoio ao esforço de guerra caiu a pique. Grupos terroristas da Al-Qaeda, insurrectos sunitas e radicais xiitas têm bem presente que basta manter a pressão sobre as forças norte-americanas para levar à inevitável decisão a tomar em Washington: reduzir ao mínimo a presença militar para evitar que o conflito transborde as fronteiras do Iraque e partir.

Reza o "Manual de Contra Insurreição" do Exército e dos Fuzileiros redigido pelos generais David Petraeus e James Amos na sua versão final de Dezembro do ano passado (Ponto 14 do I Capítulo) que "a vitória é alcançada quando a população aceita a legitimidade do governo e deixa de apoiar de forma activa ou passiva a insurreição".

Há demasiadas legitimidades comunitárias, religiosas e ideológicas em conflito no Iraque para que Petraeus possa vir a alcançar vitória e, provavelmente, o general é o primeiro a sabê-lo.

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