João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 20 de novembro de 2018 às 21:12

O Brexit do rei Carlos  

Pouco de bom reserva o Brexit para o septuagenário príncipe de Gales que, no dia em que ascender ao trono, arrisca acabar associado à dissolução do Reino Unido legado por Isabel II.

Theresa May, caso resista a um eventual desafio pela liderança do Partido Conservadores, claudicará ante a rejeição pelo Parlamento de Westminster do projecto de acordo negociado com 27 Estados da União Europeia.

 

Nenhum putativo candidato à chefia dos conservadores apresenta alternativas para uma renegociação com Bruxelas que possam ser aceites pelos 27 antes do final de Março do próximo ano.     

 

Jeremy Corbin, por sua vez, aposta numa maioria trabalhista em eleições antecipadas e na quimera de um Brexit em que o Reino Unido gozaria das actuais prerrogativas do mercado único.

 

É este o panorama e não há volta a dar.

 

Muda a discussão

 

Antes de o ano chegar ao fim a discussão já se terá centrado nos termos práticos da aplicação das regras da Organização Mundial do Comércio e de compromissos pontuais sobre os termos para circulação e residência de cidadãos britânicos e dos 27, cooperação policial e judiciária e negociações bilaterais.

 

O desconcerto da política britânica em que fracassaram todas as promessas da campanha de 2016 pela ruptura com a UE irá exacerbar as tensões sociais, regionais e etárias patentes nos resultados do referendo.

 

No País de Gales, onde 52,5% dos eleitores optaram pela ruptura, os efeitos políticos de um Brexit desordenado poderão demorar algum tempo a fazer-se sentir na Assembleia Nacional criada em 1998, mas o primeiro-ministro do governo de Cardiff, o trabalhista Carwyn Jones, vai dizendo nunca ter visto tamanha crise política.

 

As maiorias pela permanência na UE registadas em Junho de 2016 na Escócia (62%) e na Irlanda do Norte (55,8%) auguram, entretanto, o pior para a unidade do estado.

 

Os Acordos de Paz de Belfast de 1998 e a instituição da Assembleia da Irlanda do Norte (suspensa, por sinal, desde Janeiro de 2017) e do Executivo de Stormont abriram condições para a legitimação de novas entidades políticas com capacidade para negociar com Dublin e Londres.

 

A controvérsia acerca da unificação da ilha ou a manutenção dos seis condados no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda criado em 1801 e imposto por Londres à maioria católica assumirá contornos muitos mais virulentos a partir do próximo ano.

 

A chamada devolução de poderes, promovida pelos trabalhistas de Tony Blair, que instituiu o Parlamento Escocês em 1998, ameaça, por seu turno, converter-se em confronto de poderes com os nacionalistas a forçarem um segundo referendo sobre a independência com promessa de encetarem negociações para aderir à União Europeia.

 

É concebível que os nacionalistas consigam superar os resultados do referendo de 2014 quando apenas 44,7% do eleitorado se pronunciaram a favor de um governo independente em Edimburgo e, consequentemente, pela manutenção do Tratado de União dos reinos da Escócia e Inglaterra de 1706.  

 

As reformas institucionais que desde a década de 1990 concederam poderes administrativos a autoridades locais, com destaque para Londres (2000) e Manchester (2011), vão, por sua vez, passar pelo teste do confronto com o governo central, mas uma clivagem brutal está já patente.

 

 "Ter mão nas coisas", "decidir", "retomar o controlo", foram palavras de ordem que confortaram um nacionalismo inglês em 2016, a grande força que levou ao triunfo do Brexit, desorientado por décadas de transformações ofensivas do orgulho imperial.

 

A emigração oriunda dos despojos do Império a partir dos anos 50, a perda de prestígio na crise do Suez em 1956 quando Washington travou veleidades militares de Londres e Paris, a difícil reconversão do Welfare State e a polarização social trazida pelo liberalismo conservador de Margaret Tatcher deixaram marcas.

 

A truculenta relação entre Londres e os parceiros continentais, as reivindicações separatistas e soberanistas no Reino Unido, mais fossa fizeram à imagem tradicional da Inglaterra serena, senhora de si e impositiva.

 

A ronda dos tristes

 

Numa manobra clássica de pressão, Madrid, fechadas as negociações entre Bruxelas e Londres, veio reclamar esta semana que ficasse expresso no projecto de acordo o direito soberano de Espanha negociar em exclusivo com o Reino Unido o estatuto de Gibraltar.

 

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Madrid, o catalão, Joseph Borrel, afirmou, de resto, estar muito mais preocupado com a integridade do Reino Unido do que com a unidade de Espanha, aludindo à questão da Irlanda do Norte e ao nacionalismo escocês.

 

 "Mais cedo se desintegra o Reino Unido do que o reino de Espanha", asseverou o ministro socialista.

 

É ironia amarga para um Reino Unido em bolandas, uma Espanha dividida e uma União Europeia sem norte.

 

Jornalista

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