João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 14 de agosto de 2013 às 00:01

O sexo já não é o que era

O pendor acentuadamente conservador em matéria de retórica moral pregado por Vladimir Putin na campanha presidencial do ano passado reforça tendências persistentes da maioria da população e dos crentes das duas mais influentes religiões: a cristã ortodoxa e a muçulmana

Uns quantos apelos inconsequentes ao boicote dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sotchi e críticas soltas à homofobia institucional russa é tudo quanto ficará da polémica sobre a recém-aprovada legislação pelo parlamento moscovita banindo a "propaganda de relações sexuais não-tradicionais" entre menores.

A imprecisa terminologia adoptada, evitando anteriores versões com referências explícitas à homossexualidade, permite punir com pesadas multas indivíduos, instituições e empresas, além de no caso de estrangeiros prevaricadores prever detenção até 15 dias e expulsão do país.

A lei, promulgada em 30 de Junho, para "Defesa das Crianças de Informação Nociva à sua Saúde e Desenvolvimento", na mesma ocasião em que as "ofensas contra a religião" passaram a ser punidas com penas de prisão até três anos, comoveu defensores dos direitos humanos, activistas homossexuais e transexuais, sobretudo em alguns países ocidentais, mas foi bem recebida na Rússia.

Estudos de opinião credíveis indicam que 76% dos russos aprova a legislação sexual dita tradicionalista e 63% defende o agravamento da punição de ofensas a crenças religiosas.

O pendor acentuadamente conservador em matéria de retórica moral pregado por Vladimir Putin na campanha presidencial do ano passado reforça tendências persistentes da maioria da população e dos crentes das duas mais influentes religiões: a cristã ortodoxa e a muçulmana.

A legislação federal vai na esteira de medidas de discriminação de homossexuais adoptadas nas cidades de maior cariz liberal, como São Petersburgo e Moscovo, e conta com a aprovação de mais de 80 por cento dos inquiridos em estudos de opinião pública.

A lei e a desordem

Os preconceitos subjacentes à homofobia ficam claros, por exemplo, num estudo do reputado "Centro Levada" levado a cabo esta Primavera em que 35% dos inquiridos considerava a homossexualidade uma doença e 43% uma prática condenável derivada de má educação familiar, indisciplina ou sintoma de abusos sofridos na infância.

Ainda que 80% dos inquiridos afirme não ter conhecidos "sexualmente não-tradicionalistas" apenas 39% admite que homossexuais de ambos os sexos possam gozar dos mesmos direitos que a maioria heterossexual.

A tolerância de práticas sexuais heterodoxas discretas comum na aristocracia e nos meios artísticos no final da era tzarista – Piotr Tchaikovski era, por exemplo, reconhecidamente homossexual – não subsistiu no período soviético e um cineasta como Serguei Parajanov foi uma das vítimas da legislação stalinista de 1933 que puniu a homossexualidade com pena até cinco anos de prisão e trabalhos forçados.

A lei foi revogada em 1993, dois anos após a dissolução da União Soviética e os silêncios sobre o penar e as angústias de homossexuais marcaram décadas do quotidiano dos povos sob regime comunista.

A maioria camponesa continuou, por sua vez, a praticar todo o tipo de desvarios e prazeres sexuais, respeitando nominalmente as determinações da ortodoxia cristã e cultivando a homofobia, tendo os seus padrões comportamentais acabado por influenciar fortemente a vida citadina à medida que a urbanização acelerou.

Ainda hoje entre cristãos ortodoxos, a contradição entre crenças e valores expressos e as práticas do quotidiano são patentes e os muçulmanos do Cáucaso ou do Volga não são alheios a paradoxos semelhantes.

Violências de teor homossexual – sobretudo nas forças armadas – e heterossexual são notícia corrente num país caracterizado por forte indiferença ante o aborto (durante muitos anos tido como corriqueiro recurso anticoncepcional), altas taxas de divórcio, gravidezes extramatrimoniais, alcoolismo e produção e consumo de pornografia.

Acontece que a tradição já não é o que era e fantasmagorias sobre a pureza de um sexo eslavo, livre de todas as desordens, gozos e taras que a literatura russa ficcionou décadas a fio, só servem para alimentar o anedotário.

O macho alfa

Com a sua cara inchada pelo "botox" , Putin – macho alfa de perfil firme, hirto, musculado, visto por vezes de vela na mão frente aos ícones – enfrentou no Kremlin nos idos de Junho ao lado da esposa, Ludmila Aleksandrovna, uma repórter temorosa no final do primeiro acto do bailado "La Esmeralda".

Num encontro encenado em que a atrapalhação da repórter chegava a comover, o casal anunciou ali o fim de 30 anos de casamento e Vladimir Vladimirovitch tornou-se, assim, no primeiro líder russo da era moderna a dissolver os sagrados laços do matrimónio.

Sendo a Rússia um perene alforge de ironias, a deputada Elena Mizulina – apóstata do comunismo e depois do liberalismo, antes de se converter ao putinismo – indefectível das virtudes do "sexo tradicional" e do matrimónio religioso, proponha precisamente nessa altura na "Duma", a câmara baixa do parlamento de Moscovo, a adopção de um imposto sobre o divórcio.

Mizulina converteu-se fatalmente em figura grada no panteão do grande anedotário da nação e é também com ela que concorda a maioria das russas e dos russos ainda que autoritarismo e tradicionalismo nunca tenham arregimentado tentações sexuais tradicionais e heterodoxas.

Jornalista

barradas.joaocarlos@gmail.com

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