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João Carlos Barradas 08 de Abril de 2014 às 19:27

O temor dos precedentes

Em Moscovo Putin age como se pretendesse colmatar a desagregação da URSS que classificou em 2005 como "a maior catástrofe geopolítica do século" e surge como defensor das minorias russas no chamado "estrangeiro próximo".

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Os erros de cálculo e a consideração do peso de precedentes históricos estão a agravar os riscos de escalada das crises em cadeia que assolam a Ucrânia.

 

A mobilização de activistas de extrema-direita, a agitação de uma minoria irredentista russófona apoiada pelo Kremlin contestando a legitimidade do estado e a pulverização das estruturas administrativas sob domínio de grupos de interesses oligárquicos são alguns dos principais factores políticos de uma crise condenada a durar por muito tempo.

 

O padrão nazi-soviético

 

A anexação de Crimeia seguiu um padrão bem conhecido da Europa dos anos 30: conjugação de interesses de uma minoria irredentista com estado vizinho anexionista disposto a manipular conflitos étnico-religiosos e políticos com intuitos expansionistas.

 

Em Moscovo a anexação da Crimeia é assim justificada por ameaça de violência fascista contra população russa e rectificação do erro histórico de integração da península na Ucrânia Soviética por Nikita Krushov em Fevereiro de 1954.  

 

Propaganda e ilusão misturam-se nesta ignorância do destino da minoria tártata expulsa em 1944, tomando por seguidores dos nazis todos os grupos resistentes às ofensivas russas e comunistas desde o eclodir da guerra civil em 1918 no antigo império tzarista, e passando em claro as razões que levaram o recém-nomeado secretário-geral do Partido Comunista à inopinada dádiva a Kiev.

 

Obter o apoio do secretário-geral do PC da Ucrânia Oleksii Kirichenko contra o  primeiro-ministro Georgui Malenkov na luta pela liderança aberta com a morte de Stalin em Março de 1953 foi uma das razões da decisão de Krushov que só conseguiria consolidar a sua posição como líder máximo no início de 1955.

 

A absorção formal pela República Soviética Socialista da Ucrânia de mais de 800 mil russófonos contribuía subsidiariamente para obviar a tentações separatistas ou autonomistas em Kiev tal como a emigração russa para os estados bálticos aceleraria a sovietização e russificação.

 

Por este cadastro histórico as populações russófonas do Leste e Sul da Ucrânia são temidas em Kiev e Lviv como a "quinta coluna" do Kremlin recorrendo à imagem cunhada pela propaganda franquista ao lançar o ataque contra Madrid em 1936. 

 

De Versailles a Bialowieza

 

Esta estratégia não foi esquecida em Helsínquia, Talin, Riga, Vilnius, Varsóvia, Bratislava e Praga quando se avaliam as intenções de Putin.

 

Todos os estados envolvidos na guerra com a URSS e o Reich nazi têm presente a forma como foram manipuladas minorias nacionais e justificado o expansionismo pelo prestígio nacional alemão ofendido ou garantias de segurança exigidas por Stalin.

 

A unificação com a Áustria em Março de 1938, a anexação dos Sudetas germanófilos em Outubro, a invasão da Checoslováquia um ano depois, impondo um protectorado sobre a Boémia e a Morávia e a secessão da Eslováquia até ao pacto de Agosto entre Hitler e Stalin que levou à partilha da Polónia e estados bálticos abrindo caminho à guerra a ocidente em Setembro e ao ataque soviético à Finlândia em Novembro representa para muitos uma sequência lógica da ausência de resistência em sucessivas ocasiões perdidas.         

 

Em Moscovo Putin age como se pretendesse colmatar a desagregação da URSS que classificou em 2005 como "a maior catástrofe geopolítica do século" e surge como  defensor das minorias russas no chamado "estrangeiro próximo".

 

Consolidando a hegemonia russa Putin anularia o acordo assinado em Dezembro de 1991 na floresta de Bialowieza entre Boris Ieltsin, o presidente ucraniano Leonid Kravtchuk e o bielorusso Stanislau Shushkevitch e retomaria a influência do Kremlin do Báltico à Àsia Central passando pelo Caúcaso.

 

Cada vez mais decisores políticos a Ocidente assumem como válidas estas analogias, enquanto na Rússia a mistificação histórica é agravada pela ignorância generalizada, na ausência de revisões ideológicas no período pós-soviético, da participação russa e comunista nas violências étnicas e políticas que devastaram o centro e leste da Europa entre a I Guerra e os anos 50.

 

E virá Kerenski

 

As analogias históricas mesmo que pouco rigorosas ou mistificadoras condicionam a actuação dos agentes políticos.

 

Em Kiev e Moscovo discutem-se personagens como Stepan Bandera (de pró-nazi a nacionalista ucraniano indómito e irremediavelmente anti-semita) e à medida que as divergências se acentuem na capital ucraniana sobre a atitude a tomar quanto à Rússia e as contestações sociais e separatistas é de esperar que retorne o fantasma de Kerenski e, em caso pior, do desgraçado colaboracionismo de Vidkun Quisling na Noruega ocupada pelos nazis.

 

Desde os idos de 1917 que o destino de Aleksandr Kerenski desfeitiado pelos bolcheviques é analogia de regra em processos revolucionários.

 

Manuel Azaña na Espanha republicana em 1936, Eduardo Frei no Chile dos anos 60 e Mário Soares em 1975 foram tidos, sobretudo à direita, como sucessores fatais do malogrado chefe do governo provisório russo e dentro em pouco desencadear-se-á a busca do Kerenski ucraniano.  

 

Sem que a NATO ofereça garantias de segurança a estados exteriores à aliança, conforme demonstrou a guerra russo-georgiana de 2008 e a violação da soberania ucraniana, é, pois, de esperar que alastre a ponderação política por analogia alargada à intervenção no Kosovo e a duas respostas clássicas a invasões: o ataque de Kim Il Sung em Junho de 1950 na península coreana e a investida de Saddam Hussein contra o Koweit em Agosto de 1990.

 

Toda a guerra tem uma gestação mais uma menos arrastada, as expectativas, temores e cálculos de custos/benefícios dos potenciais beligerantes vão-se alterando, e o eclodir das hostilidades, mesmo que aparentemente acidental, resulta da acumulação de impasses criados pelas opções dos decisores em que os raciocínios por analogia sustentam a imagem que se cria de precedentes históricos significativos.

 

Jornalista

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