João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 15 de maio de 2018 às 20:41

Sanções e geopolítica de viés 

Trump não será muito dado às tragédias de Shakespeare, mas a sua loucura tem algo de metódico e não é mansa, nem totalmente desvairada.

O expediente de suspender ou anular sanções impostas a uma empresa de telecomunicações da China por venda ilegal de componentes norte-americanos ao Irão e à Coreia do Norte põe em causa a credibilidade da estratégia da Casa Branca para isolar Teerão e Pyongyang e adensa as dúvidas sobre a política comercial de Donald Trump.

 

A multinacional ZTE concordara em pagar uma multa de 1,2 mil milhões de dólares em Março de 2017, mas o Departamento de Comércio considerou no mês passado uma violação do acordo a não penalização dos responsáveis pelas transacções com o Irão e a Coreia do Norte e impôs a proibição por um período de sete anos da aquisição de artigos e componentes produzidos por empresas norte-americanas.

 

As compras da multinacional de Shenzhen, quarta maior empresa mundial do sector, a firmas dos Estados Unidos cifraram-se em 2017 em 2,3 mil milhões de dólares e Trump ao alegar a ameaça a "demasiados empregos" na China (a empresa conta com cerca de 75 mil trabalhadores com sucursais e subsidiárias da Austrália à Alemanha) anunciou no domingo a intenção de resolver a questão com o Presidente Xi Jinping.

 

O perdão da transferência ilegal de tecnologia é uma primeira concessão da Casa Branca para atingir nas negociações com Pequim o objectivo de reduzir em dois anos em 200 mil milhões de dólares o défice com a China (375 mil milhões em 2017) e conseguir a diminuição de subsídios estatais a sectores de alta tecnologia.

 

A imposição de tarifas de 25% a exportações chinesas num montante superior a 50 mil milhões de dólares, incluindo produtos alta tecnologia, é, de resto, uma ameaça reiterada por Washington.

 

A estratégia definida por Pequim em 2015 de expandir o mercado interno e aumentar o valor acrescentado da produção industrial, designadamente em sectores como indústrias farmacêuticas ou inteligência artificial, não contempla, contudo, as objecções norte-americanas a subsídios à revelia das regras da Organização Mundial do Comércio.

 

É a mesma lógica de aposta em sectores de ponta que, de resto, orienta o investimento em energias renováveis e o interesse da China Three Gorges no controlo da EDP. 

 

Tarifas punitivas para exportações de aço e alumínio chinesas podem ser mitigadas por cedências de Pequim nas importações de produtos agrícolas norte-americanos, reciprocidade em facilidades de investimento e incremento no respeito por propriedade intelectual, mas sem subestimar quanto possam pesar as restrições de Washington a aquisições de empresas estratégicas por firmas chinesas nos Estados Unidos.

 

As objecções quanto a alienação de empresas e sectores estratégicos (energia, portos) a empresas da República Popular é, por sinal, preocupação crescente que também se faz sentir na Europa Ocidental, Portugal e Grécia excluídos.

 

Sendo incerta a sorte das negociações comerciais sino-americanas certo é que os aliados de Washington se vêem já ameaçados pela errática geopolítica de sanções de Trump.

 

Ao renegar o acordo multilateral sobre o programa nuclear de Teerão, a Casa Branca, pela voz do conselheiro de segurança nacional John Bolton, foi expedita em adiantar que empresas europeias envolvidas em negócios com o Irão seriam abrangidas por sanções norte-americanas.

 

Uma vez que o exemplo da ZTE chinesa evidencia o arbítrio político que rege, em última análise, a política comercial, são compreensíveis as apreensões sobre o modo como os Estados Unidos usam sanções definidas por imperativo de segurança ante ameaça militar (desenvolvimento de armas nucleares) como moeda de troca em negociações com países terceiros sobre tarifas, pautas aduaneiras ou propriedade intelectual. 

 

Que Washington possa usar o SWIFT para irradiar do sistema de transacções financeiras internacionais bancos, empresas e pessoas (o Irão foi o primeiro país a ser sancionado por Washington desta forma, em concertação com os aliados europeus, e os oligarcas russos ligados ao Kremlin estão na calha), num quadro de pressão política arbitrária para eventual matéria de troca em todo o tipo de negociações é algo que não se pode excluir.

 

Trump não será muito dado às tragédias de Shakespeare, mas a sua loucura tem algo de metódico e não é mansa, nem totalmente desvairada.   

 

Jornalista

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