João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 24 de julho de 2013 às 00:01

Subtilezas e impotência

Dar sinal de repúdio por práticas terroristas, sem cortar em absoluto contactos legais de índole política com o "Hizballah", foi o compromisso assumido esta semana pelos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE.

O malabarismo diplomático da União Europeia ao declarar organização terrorista a ala armada do "Hizballah", deixando em aberto os contactos com a frente política do movimento xiita libanês, é sinal de impotência estratégica face à guerra civil na Síria.


Interditar na UE recolha e envio de fundos, congelar bens controlados pelo movimento e banir militantes é, na prática, irrelevante já que o "Hizballah", fortemente enraizado na sociedade libanesa, tem como principais fontes de apoio no exterior o Irão e emigrantes nas monarquias do Golfo.

Aos pretextos para banir o "Hizballah" – fortes indícios de participação no ataque bombista que custou a vida a cinco turistas de Israel e um cidadão búlgaro em Burgas, em Julho de 2012, confirmados num relatório oficial de Sofia em Fevereiro, além da condenação no Chipre, em Março, de um militante por tentativa de atentados contra alvos israelitas – juntou-se a intenção de punir simbolicamente o movimento pelo envolvimento no conflito sírio.

O atentado na Bulgária, uma rara e mal ponderada incursão em território europeu por parte da direcção do "Hizballah", terá sido, muito provavelmente, a concretização de um acto de retaliação há muito prometido pelo assassínio em Damasco, em 2008, por Israel do líder militar da organização Imad Mughniyeh.

O momento decisivo

A entrada em combate na Síria ao lado das forças leais a Bashir al Assad de milícias do "Hizballah" no final da Primavera representou, por sua vez, uma decisão estratégica da parte do líder Hassan Nasrallah.

O movimento ao apoiar um aliado político comprometeu-se, a par do Irão, numa guerra civil étnico-religiosa em que os alauítas sírios – próximos da mundividência xiita apesar do carácter esotérico da sua doutrina – se opõem à maioria sunita e disputam o apoio de outras minorias como cristãos, druzos ou curdos.

O efeito destabilizador da intervenção do "Hizballah" não tardou a fazer-se sentir no Líbano onde repercutem com violência as ondas de choque da guerra no país vizinho que cada vez mais atormenta estados como a Turquia e a Jordânia.

Dar sinal de repúdio por práticas terroristas, sem cortar em absoluto contactos legais de índole política com o "Hizballah", evitando banir toda a organização como já era letra de lei na Holanda e França, foi o compromisso assumido esta semana pelos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE.

As objecções de polacos, checos ou austríacos não inviabilizaram a tipificação da ala militar do "Hizballah" como entidade terrorista – tal como já era o caso na Austrália e Reino Unido –, mas inviabilizaram a interdição total do movimento conforme sucedia na Holanda, em Israel, Estados Unidos, Canadá e nas monarquias do Golfo Pérsico.

Londres avançou como argumento o exemplo bem-sucedido da táctica de interdição de organizações terroristas na Irlanda do Norte ao mesmo tempo que prosseguiam conversações políticas sigilosas e posteriormente em público com representantes separatistas, mas a situação no Líbano é totalmente diferente.

Incontornável em nome de Deus

O "Hizballah" mobilizou, com forte apoio do Irão, os xiitas do Líbano a partir de 1982, deu força a uma comunidade étnico-religiosa desfavorecida, adoptou tácticas terroristas e impôs-se na guerra civil.

Sob a liderança de Nasrallah o "Hizballah" fez frente com êxito às tropas de Telavive em 2006, e desde 1992 já se impunha eleitoralmente como representante maioritário de cerca de 30% da população (a maior minoria do Líbano), sendo, presentemente, parte integrante do governo de Beirute.

Os governantes do "Conselho de Cooperação do Golfo", incluindo o Bahrain de maioria xiita, no quadro de um confronto com o Irão e seus aliados alauítas em Damasco (correndo o risco de hostilizar os teólogos xiitas iraquianos de Najaf que têm evitado apelos à mobilização religiosa na guerra civil síria) baniram, em Junho, o "Hizballah" como organização terrorista.

As interdições de vistos e controlos sobre transferências financeiras irão prejudicar gravemente o movimento e, sobretudo, a economia libanesa que conta com meio milhão de emigrantes nas monarquias do Golfo responsáveis pelo envio de 4,6 mil milhões de dólares no ano passado, o equivalente a 10% do PIB.

A decisão da UE quanto ao "Hizballah" vai a par de iniciativas para interditar investimentos, empréstimos e formas diversas de cooperação que envolvam os Montes Golã (reconhecidos internacionalmente como parte integrante da Síria) e territórios palestinianos ocupados por Israel e das morosas e inconclusivas negociações sobre o programa nuclear militar do Irão.

Israel ao retomar negociações com a "Autoridade Palestiniana" de Mahmoud Abbas, ignorando o "Hamas" na Faixa de Gaza, por pressão do secretário de estado norte-americano, John Kerry, poderá ter em linha de conta as iniciativas da UE, mas a influência política dos 28 é limitada.

A subtileza de distinguir entre direcção política e militar num movimento de orientação teocrática ("Hizballah" significa literalmente "Partido de Deus") pode satisfazer algumas chancelarias europeias, mas traduz um modo de impotência estratégica diferente da que atormenta Washington.

O Pentágono detalhou esta semana os elevadíssimos custos financeiros de um eventual envolvimento militar dos Estados Unidos na guerra civil da Síria, cujo impasse sanguinário começa a ser admitido por todas as grandes potências, e, alertou para a necessidade de uma clara decisão política ao mais alto nível.

Somadas subtilezas e impotências o desconcerto que a todos envolve por via das incertezas do Médio Oriente até aos contrafortes do Hindu Kush implica ser provável que só quando a concretização do projecto militar nuclear iraniano chegar a um ponto irreversível venham a ser tomadas decisões radicais.

Jornalista

barradas.joaocarlos@gmail.com

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