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João Carlos Barradas 20 de Março de 2012 às 23:30

Um problema chinês

A queda em desgraça de uma das principais figuras do Partido Comunista e a caótica campanha para a eleição do chefe do executivo de Hong Kong evidenciam as disfunções do sistema político da China.

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A queda em desgraça de uma das principais figuras do Partido Comunista e a caótica campanha para a eleição do chefe do executivo de Hong Kong evidenciam as disfunções do sistema político da China.

A demissão de Bo Xilai, chefe do PC em Chongqing, trouxe à luz do dia as divisões no topo do partido com condenações públicas da linha neo-maoísta.

Bo mantém-se entre os 24 elementos da Comissão Política, mas o seu afastamento será concretizado quando o vice-presidente Xi Jinping se tornar secretário-geral.

O primeiro-ministro Wen Jiabao liderou as críticas ao ex-líder do município autónomo do sudoeste da China – metrópole com mais de 30 milhões de habitantes – que proclamava o privilégio de empresas estatais e a mobilização popular com palavras de ordem maoístas.

Desgraça de um neo-maoísta

Filho de uma eminência da era de Deng Xiaoping, Bo Yibo, o homem--forte de Chongqing cultivava uma irreverente imagem populista de inimigo da corrupção e das desigualdades sociais.

A campanha sem precedentes de promoção pública de Bo visava conseguir no Congresso de Outubro um lugar entre os nove membros da Comissão Política Permanente, o principal órgão decisório.

Tal como nas mais recentes defenestrações da Comissão Política – Chen Xitong e Chen Liangyu, líderes em Pequim e Xangai demitidos em 1995 e 2006 e condenados a penas de prisão – acusações de corrupção recaem sobre Bo e familiares próximos, denúncias de regra nas querelas políticas pós-maoístas.

Na transição ordeira de poder para a "quinta geração de líderes" aos dirigentes comunistas importa evitar dissensões ao mais alto nível capazes de propiciarem ou potenciarem contestações ao partido conforme ocorreu em 1989.

O "luan", o caos e desordem sociais temidas por gerações de senhores da China, não ameaça de momento o regime, apesar das dificuldades de ajustamento ao abrandamento do crescimento económico e à contracção demográfica.

Greves, motins e revoltas – como a ocorrida no final de 2011 na aldeia de Wukan, na província sulista de Guangdong – não põem em causa o direito a governar das autoridades centrais, mas, ao agitarem a maioria han alimentam uma potencial crise de legitimidade e representam uma ameaça maior do que o irredentismo separatista de minorias como os muçulmanos do Xinjiang ou tibetanos.

O "mandato do céu" comunista assenta no crescimento económico e melhoria contínua de condições de vida, mas confronta-se com a impossível partilha do poder político.

Uma eleição ou coisa que o valha

Tung Chee Wa, um magnata dos transportes marítimos salvo da bancarrota por Pequim, tornou-se em 1997 no primeiro chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Hong Kong.

Medíocre político Tung foi alvo da contestação ao conluio entre a oligarquia local de negócios e um PC empenhado em garantir a prosperidade da ex-colónia e obviar a tentações autonomistas capazes de alinharem com independentistas de Taiwan.

Em Março de 2005 Tung demitiu-se no terceiro ano do seu segundo mandato e foi substituído pelo número dois do governo Donald Tsang que transitara da administração colonial.

A salvaguarda de liberdades e direitos e a manutenção do sistema capitalista, acordadas com Londres por um período de 50 anos, não obrigam Pequim à eleição por sufrágio universal do chefe do governo e a escolha cabe a um Comité Eleitoral de 1 200 representantes de interesses corporativos.

Para obstar à reivindação de eleições directas as diversas instâncias do poder central têm tentado evitar afrontar directamente a opinião pública que entre os 7 milhões de habitantes se manifesta através de manifestações e protestos, sismograficamente registados em sondagens.

A eleição deste ano redundou, no entanto, num caos.

Tsang terminou o segundo mandato crivado de acusações de favorecimento a interesses empresariais e os candidatos com experiência administrativa aceitáveis por Pequim envolveram-se numa acrimoniosa troca de acusações.

O principal candidato, Henry Tang, oriundo de uma família de empresários têxteis, caiu a pique nas sondagens depois de admitir adultério e a construção ilegal de um complexo subterrâneo numa propriedade da mulher.

Outro candidato aceitável por Pequim, mas rejeitado pelo muito influente lobbie imobiliário, Leung Chun Ying, viu-se acusado de ligações ao crime organizado e de ter proposto numa reunião de executivo que as manifestações de 2003 contra uma lei anti-subversão, de que o governo acabou por desistir, fossem reprimidas pela polícia de choque.

As sondagens indicam simpatias maioritárias por Leung, mas a maioria do Comité Eleitoral aguarda instruções de Pequim quanto à orientação de voto.

Em Hong Kong, no domínio mais liberal da vasta China, uma eleição ou coisa que o valha é um quebra-cabeças.

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