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João Carlos Barradas 21 de Junho de 2016 às 19:50

Um Verão desafogado

Sondagens incertas estão longe de augurar um Verão desafogado para o Reino Unido e só sobra a certeza de desordem acrescida nas Ilhas Britânicas e no continente.

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Chegados ao referendo, não é claro se o temor às consequências económicas negativas da ruptura com a UE - argumento por excelência da campanha pelo "Ficar" - prevalece sobre a afirmação da soberania para conter os males da emigração, mote obsessivo dos partidários de "Sair".

 

O rastreio aponta para empate técnico com triunfo do "Ficar" na Escócia, Irlanda do Norte e, possivelmente, País de Gales, enquanto "Sair" ganha na Inglaterra, com a excepção de Londres, estando por determinar que influência terá o nível de participação e o voto de mais de 10% de indecisos.

 

Ponderando variações devidas a amostras, contactos online ou telefónicos, os inquéritos evidenciam a clara preferência, independentemente do sexo, pelo "Sair" entre maiores de 65 anos e eleitores com níveis educacionais aquém do ensino superior.

 

A demagogia apocalíptica das campanhas visou sobretudo o eleitorado conservador, remetendo-se Jeremy Corbyn a um "Ficar" contrafeito, capaz de decepcionar irlandeses e escoceses. 

 

A ambiguidade de Corbyn turvou ainda mais as opções de potenciais votantes trabalhistas marcados pela percepção de que insegurança e precariedade no emprego, degradação dos rendimentos do trabalho num quadro de crescente desigualdade social, resultam de efeitos nefastos da concorrência internacional, vulgo globalização, agravados pela emigração de países da UE.    

 

O estatuto de excepção de Londres na UE é irrelevante neste confronto necessariamente simplista em que argumentos de soberania plena vicejam num debate marcado desde a adesão de 1973 pela ideia de concessões mínimas para garantia de acesso a mercados continentais e livre circulação de capitais.

 

David Cameron falhando a vitória por larga margem queda-se refém da ala eurocéptica dos conservadores, sob pressão acrescida dos independentistas de Nigel Farage, incapaz de negociar cortes nos sistemas de saúde e assistência social e constrangido por escassa margem negocial em Bruxelas.

François Hollande - amargando ímpetos vencedores da direita e extrema-direita - e Angela Merkel - pressionada pelos conservadores da Baviera, xenófobos de extrema-direita e aliados sociais-democratas - não são na presente conjuntura políticos capazes de articular estratégias de renovação para a UE seja qual for o resultado do referendo.

 

As persistentes crises na Zona Euro e os conflitos sobre cedências de soberania a entidades supranacionais, caso do BCE ou Comissão Europeia, divergências de interesses com países fora da moeda única como a Suécia ou Dinamarca, confrontos sobre poderes de Estado quanto a controlo de migrações, bloqueiam consensos políticos no sentido de federalização ou revisão de competências das instituições europeias.

 

O referendo, penda para onde pender, coisa boa não trará.  

 

"Há mar e mar, há ir e voltar", asseverava a ironia sardónica de costela irlandesa de Alexandre O' Neill na campanha por "um Verão desafogado", mas, nas margens do Canal da Mancha, do mar da Irlanda e do mar Celta, nunca falta quem perca o pé e acabe levado pela corrente.

 

Jornalista

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