Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
João Quadros - Argumentista 27 de Janeiro de 2012 às 12:06

As Figuras (de estilo) de Cavaco

Foi o acontecimento da passada semana - o Presidente da República declarou aos jornalistas: "Tudo somado, quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas".

  • Assine já 1€/1 mês
  • 10
  • ...
"Parece-me mais fácil chegar à felicidade pela renúncia do que pela procura e satisfação de necessidades cada dia mais numerosas."
António de Oliveira Salazar



Foi o acontecimento da passada semana - o Presidente da República declarou aos jornalistas: "Tudo somado, quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas". Uma chatice. O que vale ao nosso presidente é a sua capacidade, única, de conseguir boas permutas. Ao contrário dos portugueses, que apostaram tudo no homem do leme e em troca obtiveram o velhote das lamúrias.

Cavaco Silva justificou-se, dizendo que não foi "suficientemente claro". António Capucho foi mais longe e disse que Aníbal usou uma metáfora.

Acho estranho. Cavaco, na oralidade, é conhecido pelo seus anacolutos, que se traduzem no desrespeito das regras de concordância verbal ou da sintaxe. Paradoxalmente, não são conhecidas muitas metáforas com números redondos e em euros. Voltemos à explicação do ex-autarca de Cascais - foi uma metáfora. Só podia estar a usar a ironia. Exemplo desta figura de estilo é a frase: já arranjei uma má moeda para levar mais logo ao Cavaco. Sinceramente, não me pareceu uma metáfora. A metáfora é uma comparação de dois termos sem uso de um conectivo - exemplo: pobreza são dez mil euros que ardem sem se ver. Ao falar em 1300 euros de pensão, e nas dificuldades para pagar as despesas, eu diria que Aníbal faltou com a verdade, se quisesse usar um eufemismo, em vez do disfemismo: mentiu com todos os dentes que tem na boca. Não queria entrar no exagero mas, na verdade, morro de saudades dos circunlóquios de Jorge Sampaio quando oiço as prosopopeias de Cavaco - a vaca ri, o presidente não vê um boi e as ovelhas choram.

É muito complicado juntar figuras de estilo e Cavaco Silva; com excepção da perífrase - o pai do monstro. Mas, se tivesse que meter o pé na poça (também é figurativo), como fez Capucho para defender o indefensável, talvez arriscasse a catacrese (do grego catáchresis), que significa: abuso, erro, engano. A catacrese, assenta como uma luva a Cavaco porque, como dizem os brasileiros, não passa de uma metáfora desgastada. A catacrese consiste na utilização de uma palavra ou expressão que não descreve com exactidão o que se quer expressar, mas é adoptada por não haver uma outra palavra apropriada. Terminamos com três exemplos bem ilustrativos: maminha de vaca; pé de meia; olho da rua.

O nosso presidente devia pôr os olhos no avô cantigas: 30 anos de carreira, domina as novas tecnologias e ainda tem quem goste dele.




As mais pobres da semana

1. Os gráficos (que tenho visto nos jornais) com os milhões da economia paralela são muito bons - a economia paralela tem uma contabilidade muito organizada.

2. Passos Coelho advertiu que o ponto de interrogação ainda não desapareceu do País - seguido de um ponto de exclamação cada vez que fala.

3. O comandante do navio italiano Costa Concordia está chocado porque já passaram duas semanas e os mergulhadores andam entretidos com cadáveres e ainda não recuperaram o isqueiro e o maço de tabaco que ele deixou no quarto.

4. O "Expresso" publicou um artigo sobre Sócrates em Paris ao estilo do falecido Carlos Castro. Estava giro. Mas mais do que o que anda a fazer Sócrates em Paris, agora interessa saber o que anda Coelho a dizer em Berlim.

5. Com Vasco Graça Moura o CCB vai ter espectáculos de música em vez de espetáculos de música.

6. Final do encontro entre Passos Coelho e Mariano Rajoy. Pelo ar de satisfação pensei: vão-nos devolver Olivença e eles ficam com a Merche Romero! Rajoy ainda tem aquele brilho de quem só está a viver com isto há pouco tempo, coitado.

7. Portugal a caminho de novo máximo no risco de bancarrota - só há uma saída para isto... somos 10 milhões, vamos todos a Fátima.


Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias