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João Quadros - Argumentista 07 de Outubro de 2011 às 11:56

O mal de Portugal

A Faculdade de Medicina da Universidade do Porto inaugura hoje, 7 de Outubro, a primeira Cátedra da Dor em Portugal

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NOTA DO AUTOR: A Faculdade de Medicina da Universidade do Porto inaugura hoje, 7 de Outubro, a primeira Cátedra da Dor em Portugal - o "timing" não podia ser melhor. Portugal é uma país de sofredores. Ninguém se queixa tanto como nós. Basta apontar um microfone a alguém com mais de sessenta anos para descobrir a existência de dores em sítios onde os nervos não ousam passar.

Vem isto a propósito de quê? - pergunta o leitor. Vem a propósito da dor de cabeça com que estou e que serve como desculpa para a crónica de hoje. Eu sei que não chega, mas vejam o que se segue como um caso clássico do sofrer lusitano.
Imagine, o leitor, que está num consultório médico… já lhe começam a doer coisas, não é?

MÉDICO: Pois é meu amigo, desta vez não há engano. Você está mesmo a morrer.
PACIENTE: Doutor, isso é uma grande chatice. Tem a certeza que essas radiografias são minhas? Olhe que eu acho que o meu esófago não é assim. É mais curvo na ponta.
M: Um médico não deve perder tempo com mortos, nós estamos cá é para cuidar dos vivos. Mas eu vou-lhe explicar. Está a ver aqui, no raio-x , o seu coração?
P: Isso não parece nada o meu coração. O meu ventrículo esquerdo é mais rosadinho.
M: Vê aqui este alto?
P: Estou a ver , estou.
M: Tem mau aspecto, não tem?
P: Sim, mas também pode ter sido da luz com que tiraram a radiografia. Ou se calhar, não o apanharam do melhor lado. Ainda no outro dia, fui tirar uma radiografia aos intestinos e o Cólon ficou com os olhos vermelhos por causa do "flash".
M: Não. Infelizmente, isto não tem nada que enganar. Você está a morrer de amor!
P: Eu?! Mas isso não é possível! Eu sou casado!
M: Isso não quer dizer nada. Tem amante?
P: Eu?! Vai para onze Verões que não toco em vivos. A última vez foi em Sagres, tive um caso com uma senhora de óculos que era professora de uma escola primária em Paderne - fiquei com as costas cheias de giz.
M: Não sente uma espécie de borboletas no estômago?
P: Só quando como borboletas em "pickles".
M: E tem tido falta de apetite?
P: Um bocadinho, mas só a seguir ao almoço. Eu garanto-lhe, doutor, que não me sinto nada a morrer de amor e nem sequer levemente apaixonado.
M: Lamento, mas não é isso que diz a sua urina. Por acaso foi jantar fora no dia dos namorados? É que, às vezes, pode ter calhado ir à casa de banho depois de alguém muito apaixonado e pode ter apanhado aí.
P: Eu não vou jantar fora desde que se me acabaram os "tickets" refeição em escudos.
M: Pois , mas ninguém tem umas Transaminases, com uns valores destes de Aspartato e Alanina se não tiver pelo menos a sofrer de amor platónico.
P: Nem conheço ninguém com esse nome. Pois. O doutor não se importa que eu vá ouvir uma segunda opinião?
M: Importo-me.
P: E uma ajuda do público?
M: Também não.
P: …telefonar para um amigo?
M: Ainda menos.
P: Espera lá, por falar nisso… agora estou--me a lembrar... eu no outro dia…
M: Eu sabia… diga…
P: Vi um antigo amigo meu da tropa (que eu fui condutor de chaimites na Guerra da Madeira) e quando o vi senti... uma coisa estranha quando ele me...
M: Cá está... eu devia ter desconfiado quando vi excesso de lantejoulas na ureia…
P: … está na Câmara com para cima de 2100 euros por mês, e tem um Opel Astra de serviço. Senti uma coisa no estômago e desde aí que não penso noutra coisa! Sacana, que fez a tropa comigo, está ali com mais de 2100 por mês e carro!
M: Espere lá! Deu-lhe azia?
P: Um bocadinho.
M: Dor no cotovelo?
P: Muito. Especialmente quando corto pão de forma.
M: Eu estava a perguntar em sentido figurativo.
P: Também. Mas só no esquerdo.
M: Pois é. Peço desculpa. Enganei-me no diagnóstico. É um erro muito comum.
P: Então já não estou a morrer?!
M: Claro que está. Mas há uma linha muita ténue entre o amor e o ódio e, às vezes, não se vê nas radiografias. Você está a morrer de inveja.
P: Ah, está bem. Então e agora?
M: Agora, não posso fazer nada. A única hipótese é rezar para que aconteça alguma coisa má ao seu amigo…
P: Isso tenho eu feito todos os dias. E se eu o matasse?
M: É muito amigo dele?
P: Sim. Posso dizer que sim. Ele salvou-me a vida na guerra…
M: Então, não o aconselho a livrar-se dele porque depois pode morrer de saudades.
P: Nesse caso, estou acabado, não é, doutor?
M: É o que eu lhe estou a dizer desde o princípio.
P: Não se importa que eu salte pela sua janela, doutor?
M: Faça favor. Mas agasalhe-se bem que ainda são vinte e sete andares. Próximo!


OUTRA NOTA DO AUTOR: Eu sei, é parvo, mas estamos todos fartos: da Madeira, da Merkel e de mim. Até para a semana.

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