João Quadros
João Quadros 08 de janeiro de 2016 às 10:09

Tsunami de debates

Nunca uma campanha para a Presidência teve tanto destaque nos media. Há debates a dois, a três, a cinco, a dez! Três frente-a-frente à mesma hora em canais diferentes, e não é novela.
Faz muita falta um calendário com todos os debates, como há com os jogos do mundial de futebol. Henrique Neto, Marcelo Rebelo de Sousa, Edgar Silva, Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém, Marisa Matias, Jorge Sequeira, Vitorino Silva, Cândido Ferreira e Paulo Morais. As combinações são infinitas. Sabendo que até podemos pôr Marcelo a debater com Marcelo, porque Marcelo diz uma coisa e o seu contrário, é difícil apanhá-los em concordância. Podemos tapar o ecrã da TV e jogar Master Mind com os candidatos, que estão em estúdio, a fazer de pinos. Na passada segunda-feira, vi o candidato Tino em dois canais ao mesmo tempo. Se há alguém capaz de parecer omnipresente é o Vitorino de Rans. Cansa. "Qual é a sua maior referência?" "Ramalho Eanes." "Porquê?" "Porque sim."

Não sei se é boa ideia esta dose maciça de debates. Corremos o risco de o próximo Presidente chegar ao primeiro dia de mandato com o estado de graça já gasto. Todos mais fartos dele do que do anterior ao fim de um ano. Apanhamos uma dose tão grande de debates com esta gente que, no dia das eleições, ganha o Cândido Ferreira porque se baldou aos debates todos. O problema de Cândido é que é o único que as pessoas não conhecem da TV. Sofre o síndrome daqueles habitantes da casa do Big Brother que saíram logo na primeira semana. Podem reconhecê-lo aqui e ali, mas não faz presenças nas discotecas que contam.

Preferia que os debates fossem em eliminatórias. Por exemplo, Marcelo-Tino a eliminar. Um mata-mata. Um candidato popularucho e o Tino de Rans. Ou um Paulo Morais contra a cadeira vazia de Cândido Ferreira. Tanto fazia, porque o Paulo Morais só ia lá falar da corrupção. Mesmo que se fuja para outros temas, como a adopção, Paulo vai dizer que só é contra a adopção por casais de corruptos. Paulo começa bem, pela corrupção na PPS, mas acaba a apontar irregularidades financeiras no fabrico dos super-maxi. Chegamos à conclusão que, sem corrupção, Paulo Morais não existe... Ou seja, é certo que sem corrupção não havia Paulo Morais e é um tiro no escuro dizer que com Paulo Morais não havia corrupção. Pessoalmente, aprecio o penteado à capacete para andar de bicicleta do Paulo Morais. Parece-me mais seguro do que o de Maria de Belém.

Fazendo um ponto da situação, ninguém está verdadeiramente feliz com os candidatos à Presidência. Claro que damos desconto porque é para ir substituir Cavaco Silva. É como se nos tivessem estado a fazer tratamento de canais e agora chegámos à fase em que só temos de escolher de que cor queremos a massa. Naqueles momentos em que vemos Jorge Sequeira, com óculos de soldar, a fazer trocadilhos e inversões com a língua portuguesa - a demo-cracia não pode ser do demo. A democracia não é obra do demónio, mas do povo. Uma povocracia , conseguimos suportar quase sem crítica porque nos lembramos das vacas que sorriem e dos bancos que estão sólidos.
TOP 5
Debates
1. Maria de Belém diz que "nenhum candidato almoça menos que eu" - e é menu kids.

2. Edgar Silva acusado de ser o que vai gastar mais dinheiro em campanha - é o único que tem uma clara aposta no aumento do consumo; devia ter o apoio do PS.

3. Marcelo mostra marmita de almoço com bolachas de água e sal e uma sandes - por isso é que Salgado lhe emprestava a casa: sabia que ele não lhe mexia na despensa.

4. Henrique Neto culpa Marcelo pela "destruição do país" - que exagero. Só estragava os domingos à hora do jantar.

5. Cândido Ferreira diz que faz campanha por temas, sem comícios ou jantares - os candidatos às presidenciais parecem vendedores de dietas loucas.
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