Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 03 de janeiro de 2020 às 15:35

A década perdida

Nós não tínhamos “lixo tóxico” na verdade aos olhos dos mercados internacionais nós éramos o “lixo tóxico”. As sucessivas avaliações das agências de rating assim proclamavam.

A segunda década do século XXI ficará na história económica portuguesa como uma década perdida, uma década de estagnação, uma década de emigração, uma década de aumento do atraso português em relação ao pelotão da frente, uma década em que fomos ultrapassados por outros países europeus e de outras latitudes.

 

Uma década que começou já depois da grande crise financeira de 2008, mas em que os nossos governantes em vez de se precaverem insistiam que a banca portuguesa "não tinha ativos tóxicos" e que o mercado imobiliário "não estava sobrevalorizado". Não se aperceberam que o "lixo tóxico" de que os outros falavam incluíam todos os investimentos nos e dos bancos portugueses.

 

Nós não tínhamos "lixo tóxico" na verdade aos olhos dos mercados internacionais nós éramos o "lixo tóxico". As sucessivas avaliações das agências de rating assim proclamavam.

 

O estrangulamento financeiro não tardou. Excessivamente endividado no estrangeiro o sistema financeiro português colapsou quando o financiamento externo parou. Dos bancos privados portugueses não resta nenhum mesmo depois de enormes ajudas estatais. O Millennium bcp passou para os angolanos primeiro e depois para os chineses, o BPI para os espanhóis, o Banif para os espanhóis, o BES com novo nome para os americanos. Só a Caixa se mantém portuguesa.

 

Sem apoio dos bancos a economia real também entrou em contração. O desemprego aumentou e a emigração ressurgiu a níveis nunca vistos.

 

Perante a crise o governo desistiu, chamou o FMI e submeteu-se convictamente a uma austeridade draconiana. Anos de recessão, empobrecimento, diminuição da população, de declínio social e civilizacional.

 

A geringonça deu esperança, parou a sangria da emigração, do retrocesso social, da recessão económica, mas não conseguiu retornar o país aos níveis de antes da crise.

 

Dois indicadores: primeiro população residente 2010: 10,572 milhões, 2018: 10,276, i.e. 296 mil pessoas a menos; PIB de Portugal a preços constantes: 2010 – 190 666 milhões de euros, 2018 197,741, i.e. um pequeno crescimento médio de menos de 0,5% por ano.

 

O atraso português aumentou, em 2010 o nosso PIB per capita era de 81% da média da União Europeia em 2018 era de 75%. Os outros avançam nós ficamos para trás.

 

Passados 10 anos o sistema financeiro continua frágil – as injeções no Novo Banco aí estão para atestá-lo – o mercado interno não recuperou, o declínio populacional continua, os salários mantém-se abaixo dos de 2010, no imobiliário vivemos nova bolha.

 

Desta década desastrosa não soube o governo retirar as lições e entramos agora na terceira década do século com a mesma fragilidade com que iniciámos a que agora finda.

 

Economista

pub

Marketing Automation certified by E-GOI