Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 19 de novembro de 2019 às 20:20

Bernardo Silva, os comentadores e a juventude portuguesa

De facto muito do que é considerado racismo em todo o mundo é em Portugal praticado impunemente. Lamentável. Vergonhoso para o nosso país.

Bernardo Silva, um talentoso futebolista português, jogador do Manchester City um dos melhores e mais bem geridos clubes da atualidade, confessou ter violado o regulamento da associação de Futebol inglesa que proíbe o racismo. Por isso foi rapidamente condenado a frequentar um curso sobre discriminação, a pagar uma multa elevada e a um jogo de suspensão. Uma sentença adequada e justa.

 

No entanto um coro de comentadores tem vindo a lume defender o jogador mesmo depois deste ter confessado. São dois os argumentos utilizados por estes comentadores: i) não houve racismo, ii) a pena é exagerada. Vejamos.

 

A tese de não houve racismo baseia-se na suposta amizade entre o agressor e a vítima. Por esta estranha lógica a violência doméstica ou qualquer crime, incluindo, o assassinato entre amigos seria legal. A amizade entre duas pessoas não excluiu que um dos "amigos" possa cometer um crime contra o outro. A amizade pode levar mesmo a vitima a desculpar o agressor, como acontece amiúdes vezes nos casos de violência doméstica ou de racismo. Para ultrapassar esta situação existe a figura de crime público que não carece de queixa da vítima. Esse mesmo foi o entendimento da Associação de Futebol Inglesa que claramente disse que o insulto não atingiu só o visado mas toda uma comunidade, uma vez que foi feito nas redes sociais para uma vasta audiência.

 

A tese de que não houve racismo também se baseia no facto de alguns não considerem o insulto praticado ofensivo, antes uma brincadeira. Essa não é a opinião oficial sobre o tema nos países civilizados. De facto muito do que é considerado racismo em todo o mundo é em Portugal praticado impunemente. Lamentável. Vergonhoso para o nosso país.

 

A tese da pena exagerada. Quando se pretende erradicar um comportamento indesejável a melhor forma é ensinar às pessoas os malefícios desse comportamento e, depois, se persistirem no erro é necessário punir. Mas tem de ser uma punição que seja sentida como tal e não como a compra de uma licença para continuar a praticar o mesmo comportamento. As multas de estacionamento em Portugal são baixas pelo que os condutores persistem em estacionar onde não devem. O cálculo é simples se durante vários dias não pago parquímetro e depois apanho uma multa ligeira poupei dinheiro pelo que tenho um forte incentivo a continuar a prevaricar. Por isso as multas devem ser de molde a desincentivar os comportamentos perniciosos. Para um jogador com vencimento elevado multas baixas não servem para nada. Assim a multa tem de ser alta e incluir suspensão de jogar.

 

Um núcleo de racistas mais empedernidos diz mesmo que Bernardo Silva não está arrependido e que ele não vê problema no seu comportamento. É grave. Tais comentários, de forma inesperada para os que os proferiram, podem e devem ser interpretados como denúncias públicas. Espero que não seja verdade. Mas se o for, se mentiu à Associação Inglesa de Futebol, se confessou de má-fé, então deve ser, de novo, condenado. Que diz Bernardo Silva? Está, de facto, arrependido?

 

Uma atenuante que Bernardo Silva alegou e foi considerada pela Associação de Futebol Inglesa foi a ignorância. Não sabia que o seu comportamento era ofensivo!! Por isso foi condenado a uma formação. Mas esta ignorância mostra a insuficiente preparação cívica no nosso país. Um país em que os jovens brancos são ensinados por coros de comentadores a não reconhecer o racismo.

 

Assim, num mundo cada vez mais globalizado e diverso, os nossos jovens brancos encontram-se em desvantagem para singrar em locais onde o racismo é rejeitado. Bernardo Silva levou uma multa, outros menos afortunados serão presos, expulsos, impedidos de desenvolver as suas carreiras profissionais.

 

Este caso paradigmático mostra como os jovens portugueses brancos estão desarmados pelo ensino, e pela opinião de tais comentadores, para enfrentar o mundo moderno e os seus desafios. Os jovens portugueses negros estão, neste capítulo, melhor preparados. Eles, infelizmente, conhecem bem o que é o racismo.

 

Economista

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