Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 15 de janeiro de 2020 às 15:22

"Hora di bai"

Nunca um crime cometido em Portugal desencadeou uma tão grande onda de indignação e clamor de justiça de alcance internacional.

Em Lisboa, Porto, Mirandela, Bragança, Londres, Paris, Luxemburgo, Praia, Santo Antão, Mosteiros, Brockton milhares de pessoas saíram à rua para exigir justiça. Em Lisboa fez-se 21 minutos de silêncio, um minuto por cada ano de vida do jovem assassinado. A seguir cantou-se "Hora di Bai" uma morna triste do famoso poeta cabo-verdiano Eugénio Tavares. Numa pequena intervenção inicial uma jovem lembrou-nos de "uma mãe que chora e de um pai que sofre". Houve lágrimas em muitos olhos. 

 

Nunca um crime cometido em Portugal desencadeou uma tão grande onda de indignação e clamor de justiça de alcance internacional. No entanto a generalidade dos órgãos de comunicação social preferiu ignorar as pessoas que choravam e exigiam justiça e concentrar-se em aspetos laterais ou totalmente secundários do caso. 

 

Um quase completo apagão noticioso em Portugal. Por outro lado nos media a palavra "assassinato" foi completamente substituída por mais outras mais suaves, enganosas e desculpabilizantes como "morte" ou "morto". 

 

Pela imprensa luxemburguesa ficamos a saber quando o pai de Giovani se dirigiu à esquadra para apresentar queixa das agressões sofridas pelo filho os polícias recusaram receber a queixa com o argumento que teria de ser o próprio Giovani a fazê-lo. Revoltante pelo cinismo e o racismo contidos nesta atitude. 

 

Muitos, sempre prontos a louvar a iniciativa privada e cidadã, nada dizem sobre uma das maiores manifestações organizadas pela sociedade civil portuguesa nos últimos anos. Políticos na marcha, apenas vi três: Joacine Katar Moreira, sempre tão criticada mas sempre solidária, Beatriz Gomes Dias e o antigo dirigente do CDS Ribeiro e Castro. 

 

Em dezembro do ano passado dois jovens foram assassinados, um português branco e um negro cabo-verdiano, um em Lisboa outro em Bragança, um numa urbe de 2 milhões de pessoas e outro numa pequena cidade de 22.000 habitantes onde praticamente todos se conhecem. 

 

A polícia atuou de imediato e já identificou e prendeu os suspeitos do assassinato de uma das vítimas. Mas no caso mais fácil, pelo meio em que ocorreu o crime ser mais pequeno, por haver potenciais testemunhas, por ter havido ameaças prévias em frente de várias pessoas, por haver imagens de videovigilância, nada aconteceu. Zero. A polícia continua em diligências aparentemente infrutíferas. 

 

Dois casos, duas atuações diferenciadas, duas medidas. É esta atuação diferenciada que choca e indigna. Uma justiça que longe de ser cega parece só ter olhos para cores. 

 

Um amigo alertou-me para o caso de um familiar seu, igualmente jovem, assassinado em Lisboa há alguns anos atrás depois de corajosamente defender uma rapariga que estava a ser assediada num local público. A polícia levou dois anos a encontrar os assassinos. Uma vergonha. 

 

Não é este o padrão de atuação que queremos da polícia portuguesa. Queremos justiça rápida e eficaz para todos.

 

Economista

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