Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 04 de fevereiro de 2020 às 17:43

O Benfica, André Ventura e a FIFA

É tempo do Benfica cortar com este comentador, não lhe permitir arrogar-se defensor do clube, quando na verdade só o prejudica, nem fazer-lhe chegar informação que o auxilie na sua prestação televisiva.

Uma nota prévia para referir que, desde que me conheço sou benfiquista. Vibrei com Eusébio já no seu ocaso, emocionei-me com a geração de 70 com Zé Gato, com Bento, com Toni, com Diamantino, com Néné, segui as equipas dos anos 80 de Neno, Veloso, Carlos Manuel, Manniche, Rui Águas, aplaudi encantado nos anos 90 Michel Preud’homme, João Pinto, e mais tarde Rui Costa, Paulo Sousa, e tantos, tantos outros. Fica dito: sou benfiquista.

 

O Benfica tem sido um clube inclusivo e diverso acolhendo jogadores de vários extratos sociais, de diversos países, das mais variadas origens. Jogadores negros, asiáticos, europeus, técnicos igualmente diversos como o foram Mário Wilson ou Sven Göran Eriksson.

 

É um clube com larga massa de adeptos e simpatizantes em outros países, como eu também simpatizo com o Barcelona, nomeadamente nos países africanos de língua oficial portuguesa.

 

Um clube destes não pode ter como porta-voz/comentador "oficioso" um indivíduo como André Ventura, recentemente condenado pelo presidente da Assembleia da República respaldado como apoio da enorme maioria dos deputados como xenófobo e racista. A ministra da Justiça também publicamente o condenou pelas mesmas razões.

 

Naturalmente que quem assista aos programas televisivos em que André Ventura é o "representante" do Benfica, percebe que o grau de conhecimento dos temas que exibe implica uma proximidade e uma colaboração com a estrutura do Benfica. Não fora essa proximidade, muito provavelmente, não poderia desempenhar esse papel.

 

A associação desta personalidade ao Benfica é extremamente prejudicial para o clube. Muitos interrogam-se porque se não demarca o Benfica de tal personalidade. Como benfiquista sinto-me muito perturbado e envergonhado, questionando-me se o Benfica da minha juventude, se o Benfica que ergueu uma estátua a Eusébio é o mesmo que tem por "representante" um deputado do partido populista Chega que, despudoradamente, quer "enviar para a sua terra" uma deputada portuguesa negra?

 

Que impacto tem esta associação nos jogadores negros do Benfica? Só pode ser desmoralizante. Que negro corre motivado e com gosto por um clube que permite que um racista fale em seu nome? Hoje é a deputada amanhã será o jogador, o treinador, ou qualquer membro da estrutura. Que impacto tem esta personalidade nos benfiquistas negros, portugueses ou estrangeiros? Só pode ser muito negativo. Que impacto tem esta personagem nos benfiquistas brancos que na sua esmagadora maioria repudiam o racismo e o preconceito? Também não é positivo.

 

André Ventura afasta os benfiquistas do Benfica. Se fosse um verdadeiro benfiquista demitia-se voluntariamente.

 

Como reagirão a UEFA e a FIFA, instituições que levam a cabo intensas campanhas antirracistas, ao saber que o Benfica tem como "defensor oficioso" num canal de TV André Ventura e que dele não se demarca?

 

Luís Filipe Vieira tem obtido êxitos desportivos relevantes e não merece ficar associado a André Ventura, ao populismo e ao racismo. Mas se deles se não demarcar acabará inevitavelmente ligado a tais políticas, o que lhe dará um lugar de destaque pela negativa na História do Clube.

 

É tempo do Benfica cortar com este comentador, não lhe permitir arrogar-se defensor do clube, quando na verdade só o prejudica, nem fazer-lhe chegar informação que o auxilie na sua prestação televisiva.

 

Economista

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