Jorge Fonseca de Almeida
Jorge Fonseca de Almeida 08 de outubro de 2019 às 15:49

O Racismo não existe?

É que tudo o que, no mundo civilizado, é considerado racismo em Portugal as elites e os seus porta-vozes declaram ser “normal”, “aceitável” e até “recomendável”.

Em Portugal o racismo não existe repetem-nos todos os dias pelo menos de manhã, à tarde e à noite, nos jornais, nas televisões e nas rádios. Vozes sibilinas saindo de cabeças branca, repetindo-se, afinando pelo mesmo diapasão, pertencentes ao mesmo coro de reportório limitado.

 

Sendo este refrão contrário á experiência da quase totalidade dos negros, ciganos e outros não-brancos podemos perguntar-nos de onde vem esta discrepância de perceções. As vítimas queixando-se da discriminação e da segregação racial o grupo dominante assobiando alegremente para o ar e negando pela milionésima vez com ar falsamente inocente que em Portugal exista racismo.

 

Alguns exemplos recentes ajudam a explicar esta situação paradoxal e absurda. É que tudo o que, no mundo civilizado, é considerado racismo em Portugal as elites e os seus porta-vozes declaram ser "normal", "aceitável" e até "recomendável".

 

Um jogador de futebol, Bernardo Silva, é unanimemente condenado em Inglaterra por ofensas racistas a um seu colega negro, em Portugal eleva-se o coro a gritar "vejam lá acusa-lo por uma piada com tão bom gosto. Os ingleses estão loucos". Por misteriosos desígnios que só alguns escolhidos podem compreender o mesmo ato, racista em Inglaterra torna-se louvável ao cruzar a fronteira.

 

O primeiro-ministro do Canadá surge em foto de "black-face" é universalmente condenado no seu país. Cá salta o coro a legitimar a atitude de juventude de Pierre Trudeau apresentando-a como "perfeitamente normal". Nem o próprio assim entendeu apresentando de imediato um pedido formal e sincero de desculpas públicas. Novamente a transmutação dos factos, o black-face inaceitável no Canadá ganha foro de "brincadeira inofensiva" no nosso país. As maravilhas da fronteira.

 

Um energúmeno português escreve, com os expectáveis erros gramaticais, "Cigano por mim eram todos abatidos". Apresentada queixa o Ministério Público arquiva o processo porque esta frase "mais não exprime do que a opinião pessoal do seu emitente" e não é racismo. Imaginemos quantos anos de prisão teria na Alemanha por exprimir esta inócua opinião.

 

Hitler emitiu por diversas vezes este tipo de apreciações… o resultado foi o extermínio de dezenas de milhar de ciganos. Por cá, com este Ministério Público, os seus seguidores têm terreno fértil para a pregação das suas ideias.

 

As populações negras e ciganas são empurradas para guetos e o coro grita "e os brancos não viviam em barracas? É a pobreza e não racismo". E ficam tranquilos de braços cruzados.

 

Emerge então um padrão. Tudo o que verdadeiramente é racismo por cá não o é. Uma estranha singularidade nacional. Um raro daltonismo que não enxerga o que o mundo inteiro vê. É a isto que se chama negacionismo. É, na verdade, uma forma de mentir e de enganar.

 

Portugal tem de mudar de atitude. Reconhecer o racismo e tomar as medidas para o erradicar da sociedade portuguesa.

 

Por isso saúdo as três deputadas negras eleitas com a esperança que possam, pela sua intervenção, trazer as questões do racismo para o centro da agenda política e social.

 

Economista

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