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Jorge Fonseca de Almeida 25 de Agosto de 2020 às 14:20

Preconceitos e vacinas

Quando a China e a Rússia anunciaram as suas vacinas e na China uma campanha de vacinação limitada às pessoas mais expostas começou em julho, na Europa prefere-se esperar que uma companhia americana acabe de desenvolver a sua vacina.

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A atual pandemia foi identificada na China na cidade de Wuhan, uma das poucas cidades mundiais que têm a capacidade de identificar novas estirpes de vírus e bactérias. Quanto à sua origem as teorias divergem e não há certeza de onde terá passado do animal ao homem.

 

Uma vez identificado o vírus e conhecida a sua letalidade e transmissibilidade o mundo começou a preparar-se para o enfrentar.

 

Tirando partido das experiências anteriores a China agiu rapidamente: isolou a província onde a doença se manifestou e as autoridades de saúde decretaram o uso generalizado de máscaras, a quarentena rigorosa, a utilização das novas tecnologias para de forma eficiente rastrear os focos com recurso a uma APP para telemóvel.

 

Face ao volume de casos e procurando evitar mortes excessivas a China construiu um enorme hospital em pouco mais de uma semana e lançou-se na produção de máscaras e ventiladores. Simultaneamente a China inventou testes de diagnóstico e começou a trabalhar numa vacina e numa cura. Enquanto a China trabalhava o mundo dormia.

 

Quando depois de a China ter feito tudo para atrasar a propagação da doença, ela chegou finalmente à Europa – entrando pela Itália que se revelou dramaticamente impreparada, embora prevenida com quase três meses de antecedência.

 

Pressionadas pelos interesses económicos as autoridades recusaram fechar a Lombardia e o governo regional fez mesmo uma campanha publicitária em que afirmava "Milão não se fecha" e em que apelava ao convívio nas ruas, aos abraços e aos ajuntamentos. Das feiras industriais e das estâncias turísticas transalpinas a doença espalhou-se depois pela Europa e pelo mundo.

 

A Itália mergulhou no caos. Faltava tudo. De máscaras até para o pessoal de saúde a ventiladores, a hospitais. E até quando se tornou óbvio que a quarentena tinha de ser feita ela foi anunciada com antecedência permitindo aos nortenhos rumar a sul e aí espalhar a doença tornando inútil a quarentena como medida de contenção. A Itália já ultrapassou os 30 mil mortos.

 

Na Europa a resposta foi desastrosa: as máscaras foram declaradas inúteis e até perigosas, a APP de rastreio apodada de totalitária, a mobilização de recursos de uma região para outra recusada, a construção de hospitais demasiado dispendiosa. Na base da recusa de seguir o exemplo chinês um misto de arrogância xenófoba, de pressão dos interesses económicos e simples incompetência. Meses mais tarde, depois de milhares de mortos, todas essas medidas acabaram por ser tomadas de forma parcelar.

 

Completamente impreparada a Europa teve de ser ajudada pela China através do fornecimento de simples máscaras até aos mais sofisticados testes de diagnóstico ou aos necessários ventiladores. A União Europeia já ultrapassou o milhão e setecentos mil infetados e os cento e quarenta mil mortos (140.000). Ou seja quase 3.900 infetados por milhão de habitantes e 330 mortos por milhão de habitantes.

 

Na Ásia os decisores foram mais pragmáticos e seguiram o exemplo chinês. Os resultados têm sido semelhantes. Vejamos China 3 mortos por milhão de habitantes, Japão 9, Coreia do Sul 6, Singapura 5 mortos, Taiwan 0,3 mortos, Macau zero mortos. Uma diferença entre menos de 10 mortos por milhão de habitantes e mais de 300 eis a diferença entre a Europa e partes significativas da Ásia.

 

Mas e a economia? A verdade é que os países que melhor resistiram à pandemia, também resistiram melhor ao impacto económico. A China vai continuar a crescer, o Japão e a Coreia terão pequenas recessões e a Europa e os EUA recessões de grandes dimensões.

 

Podia ter sido diferente? Sim, é evidente. É preciso aprender as lições e perceber que na atual época da globalização os EUA já não lideram em todos os domínios e que a Europa muito tem a aprender com as melhores práticas asiáticas.

 

Mas em vez de aprendermos, regressamos aos mesmos erros que já tantas vidas custaram. Quando a China e a Rússia anunciaram as suas vacinas e na China uma campanha de vacinação limitada às pessoas mais expostas começou em julho, na Europa prefere-se esperar que uma companhia americana acabe de desenvolver a sua vacina. Interesses económicos e nacionalismos à frente da saúde pública. Quantos mais mortos custará esta espera?

 

Economista

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